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Sábado, 09 DE Abril DE 2011

Mouseland

Tommy Douglas (1904 -1986) was one of Canada's best known New Democrats. 

 

It's the story of a place called Mouseland. Mouseland was a place where all the little mice lived and played, were born and died. And they lived much the same as you and I do.

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Esta é a história de uma terra chamada Ratugal. Ratugal era uma terra onde todos os pequenos ratos viviam e brincavam, nasciam e morriam. E eles viviam basicamente da mesma maneira que vocês e eu vivo.

They even had a Parliament. And every four years they had an election. Used to walk to the polls and cast their ballots. Some of them even got a ride to the polls. And got a ride for the next four years afterwards too. Just like you and me. And every time on election day all the little mice used to go to the ballot box and they used to elect a government. A government made up of big, fat, black cats.

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Eles até tinham um parlamento. E a cada quatro anos tinham uma eleição. Costumavam andar até às urnas de voto para votarem. Alguns deles até podiam ter boleia até às urnas. E puderam ir de boleia pelos próximos quatro anos também. Tal eu e vocês. E a cada vez no dia da eleição, todos os pequenos ratos costumavam ir às urnas e costumavam eleger um governo. Um governo composto de grandes, gordos, gatos pretos.

Now if you think it strange that mice should elect a government made up of cats, you just look at the history of Canada for last 90 years and maybe you'll see that they weren't any stupider than we are.

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Agora, vocês podem pensar que é estranho que os ratos elegessem um governo composto por gatos, mas basta que olhem para a história de Portugal dos últimos 90 anos e talvez possam ver que eles não eram mais estúpidos do que nós somos.

Now I'm not saying anything against the cats. They were nice fellows. They conducted their government with dignity. They passed good laws--that is, laws that were good for cats. But the laws that were good for cats weren't very good for mice. One of the laws said that mouseholes had to be big enough so a cat could get his paw in. Another law said that mice could only travel at certain speeds--so that a cat could get his breakfast without too much effort.

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Mas eu não estou a falar nada contra os gatos. Eles eram boa gente. Eles conduziam o seu governo com dignidade. Eles aprovavam boas leis - isto é, leis que eram boas para gatos. Mas as leis que eram boas para os gatos não era muito boas para os ratos. Uma das leis dizia que os buracos dos ratos teriam de ter tamanho suficiente para que um gato pudesse meter lá a pata. Outra dizia que os ratos só podiam viajar a determinadas velocidades - para que um gato pudesse tomar o seu pequeno-almoço sem muito esforço.

All the laws were good laws. For cats. But, oh, they were hard on the mice. And life was getting harder and harder. And when the mice couldn't put up with it any more, they decided something had to be done about it. So they went en masse to the polls. They voted the black cats out. They put in the white cats.

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Todas as leis, eram boas leis. Para os gatos. Mas vejam, elas eram difíceis para os ratos. E a vida estava a ficar mais e mais difícil.  E quando os ratos não podiam aguentar mais com aquilo, eles decidiram que algo tinha que ser feito. Então eles foram em massa às urnas. Eles votaram e tiraram os gatos pretos do poder. Eles puseram lá os gatos brancos.

Now the white cats had put up a terrific campaign. They said: "All that Mouseland needs is more vision." They said:"The trouble with Mouseland is those round mouseholes we got. If you put us in we'll establish square mouseholes." And they did. And the square mouseholes were twice as big as the round mouseholes, and now the cat could get both his paws in. And life was tougher than ever. And when they couldn't take that anymore, they voted the white cats out and put the black ones in again. Then they went back to the white cats. Then to the black cats. They even tried half black cats and half white cats. And they called that coalition. They even got one government made up of cats with spots on them: they were cats that tried to make a noise like a mouse but ate like a cat.

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Ora os gatos brancos tinham montado uma formidável campanha. Eles disseram: "tudo o que Ratugal precisa é de mais visão". Eles disseram: "o problema de Ratugal deve-se àqueles buracos de ratos redondos. Se nos elegerem vamos criar buracos de ratos quadrados". E assim fizeram. E os buracos de ratos quadrados tinham o dobro do espaço que os buracos de ratos redondos e assim o gato podia meter lá ambas as patas. E a vida estava mais dura do que nunca. E quando os ratos não podiam aguentar mais com aquilo eles votaram contra os gatos brancos e puseram os gatos pretos de novo no poder. Depois voltaram-se de novo para os gatos brancos. Depois para os gatos pretos. Depois eles até tentaram votar em gatos meio brancos meio pretos. E a isso eles chamaram uma coligação. Eles até tiveram um governo composto de gatos com pintas: eles eram gatos que tentavam guinchar como ratos mas comiam como gatos.

You see, my friends, the trouble wasn't with the colour of the cat. The trouble was that they were cats. And because they were cats, they naturally looked after cats instead of mice.

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Vocês compreenderam, amigos, que o problema não era com a cor do gato. O problema era que eles eram gatos. E porque eles eram gatos, eles naturalmente olhavam pelos interesses dos gatos em vez dos ratos.

Presently there came along one little mouse who had an idea. My friends, watch out for the little fellow with an idea. And he said to the other mice, "Look fellows, why do we keep on electing a government made up of cats? Why don't we elect a government made up of mice?" "Oh," they said, "he's a Bolshevik. Lock him up!"

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Até que apareceu um pequeno rato com uma ideia. Meus amigos, atenção ao pequeno tipo com uma ideia. E ele disse para os outros ratos, "vejam rapazes, porque continuamos a eleger um governo feito de gatos? Porque não elegemos um governo feito de ratos?" "Oh", disseram eles, "é um comunista. Prendam-no!"

So they put him in jail.
But I want to remind you: that you can lock up a mouse or a man but you can't lock up an idea.

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Assim eles puseram-no na cadeia.

Mas eu quero vos lembrar: podem prender um rato ou uma pessoa mas não podem prender uma ideia.

publicado por Rojo às 22:16
Quinta-feira, 24 DE Fevereiro DE 2011

Revoluções

As revoluções têm sido tecnológicas/científicas, culturais/religiosas e políticas. As revoluções sociais e económicas são ao fim ao cabo todas elas, porque todas têm implicações no aspecto que mais interessa às diferentes classes: a repartição do poder e da riqueza.

 

A primeira revolução que marca o ínicio da época em que vivemos é a Revolução Francesa, por ser uma revolução política ela é mais notada pelos historiadores. A Revolução Industrial, ou seja, a parte económico-social da Revolução Francesa é a base da grande mudança do sistema económico feudal para o sistema económico capitalista em que vivemos. A república liberal ou a democracia burguesa que lhe dá forma política é apenas a face do sistema capitalista (quase sempre) dominante na era industrial.

 

Podemos dizer que a época capitalista iniciou uma época de revoluções - sobretudo revoluções políticas mas não só - pois a partir da tomada da Bastilha, o derrube de governantes despóticos (que prevalecem em todo o feudalismo desde o íncio da era agrícola) quase que passou a ser normal pelo menos ciclicamente. Isto porque a burguesia ascendente precisou do povo, camponês e proletário, para derrubar o velho feudalismo e construir o novo capitalismo. Começou uma era de revoluções, quando até aí os povos tinham apenas papéis muito menores em guerras fronteiriças ou civis.

 

Desde então existiram várias ondas revolucionárias:

- As revoluções liberais. Ficaram conhecidas por revoluções atlânticas. Desde as revoluções liberal republicanas na Europa até às guerras de libertação da América Latina.

- As revoluções socialistas. Desde a Comuna de paris 1848 até à Revolução Cubana.

- As revoluções de libertação nacional. Na Ásia e na África.

- As revoluções hibrídas socialistas e anti-imperialistas. Tais como o Farabundismo, Sandinismo, Sukarnismo, Nasserismo.

- As revoluções culturais. Maio de 68 e afins.

- As revoluções religiosas. Revolução Islâmica no Irão.

- As revoluções democráticas progressistas. Venezuela Bolivarina e as vitórias dos movimentos latino-americanos. As actuais revoluções árabes?

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publicado por Rojo às 16:48
Quinta-feira, 11 DE Março DE 2010

35 anos do 11 de Março, das nacionalizações e do controlo operário

Quinta, 11 Março 2010 17:39

Avante - Trabalhadores derrotam golpe e levam revolução à economia.

 

Assinala-se hoje o 35.º aniversário do 11 de Março de 1975, golpe militar promovido pelas forças contra-revolucionárias. A derrota do putch pelos trabalhadores e o povo aliados aos militares revolucionários do MFA consolidou a liberdade conquistada a 25 de Abril de 1974, abriu caminho à resposta que a sabotagem da burguesia impunha, afastou as classes dominantes do poder político e aboliu, no fundamental, o seu poder económico.

Desde o derrubamento do fascismo que as forças contra-revolucionárias procuravam travar o processo libertador empreendido pelos militares aliados do povo, e pelos trabalhadores e as suas organizações de classe.

A reacção começou logo em Julho de 1974 com o golpe Palma Carlos, com o qual António Spínola, então presidente da Junta de Salvação Nacional (JSN), pretendia «chamar a si “plenos poderes”»*; e continuou, meses depois, no «28 de Setembro», igualmente outro «golpe de Estado, mas culminando e tendo como elemento preparatório determinante um plano ambicioso de mobilização, concentração e manifestação gigantesca de forças reaccionárias»*.

Derrotando estas duas intentonas, prosseguindo a efectivação das aspirações e conquistas de Abril através do seu exercício prático, isto é, sem esperar pelos decretos de um poder político-militar roído por contradições de classe e tendências, e, por isso, incapaz de «tomar a iniciativa e a direcção das transformações revolucionárias»**, a luta de massas assumia-se como o motor da revolução.

O povo e os trabalhadores cumpriram, desde as primeiras horas de Abril, a liberdade de reunião e manifestação, de associação política, de acção e organização sindical e de greve, de imprensa e expressão; sanearam os fascistas das autarquias e deitaram mãos à identificação dos problemas locais e à sua resolução; avançaram para a Reforma Agrária depois da 1.ª Conferência dos Trabalhadores Agrícolas do Sul - convocada pelo PCP e realizada a 9 de Fevereiro de 1975, em Évora - alterando radicalmente as relações sociais nos campos do Alentejo e Ribatejo e respondendo, desta forma, à necessidade objectiva de proteger a revolução da violenta reacção dos latifundiários, que viam escapar-lhes o poder que haviam conservado durante a ditadura fascista.

Cumplicidades

Enfrentando um vigoroso movimento popular e da classe operária disposto a defender o processo revolucionário e as liberdades conquistadas destruindo o domínio e o poder dos monopólios e latifundiários e construindo a democracia nos planos político, económico e social, o grande capital e os agrários procuraram, mais uma vez, salvaguardar o controlo do aparelho de Estado que, durante 48 anos, laborara ao serviço da concentração e acumulação de capital.

A novidade em relação a anteriores golpes é que, com Spínola afastado das suas altas funções, as forças contra-revolucionárias passaram ao ataque «de fora do poder político e contra ele»*.

Reagrupados e organizados, passaram à contagem das espingardas. No CDS de Freitas do Amaral e no PPD de Sá Carneiro tinham sólidos apoiantes para golpes e conspirações. No PS de Mário Soares encontraram um fiel aliado.

Nos bastidores, logo depois do 28 de Setembro, «estabeleceram-se contactos regulares de responsáveis do PS (nomeadamente Manuel Alegre, Edmundo Pedro e Vítor Cunha Rego) com o próprio Spínola, no seu retiro em Massamá»*, confirma Mário Soares. Contactos que, acrescenta, tinham como objectivo «ficarem ao corrente do que se pensava e projectava no sector dos militares chamado spinolista»*.
Já depois da morte de Spínola, Alpoim Calvão contaria que «em Outubro de 1974 dois importantes elementos do PS contactaram um oficial muito próximo do general Spínola sugerindo-lhe que se organizasse uma rede de oficiais prontos a intervir». A sugestão foi aceite.
Acompanhando de perto a evolução dos acontecimentos, a CIA encara «um golpe para Portugal, do tipo chileno» a realizar antes do fim de Março [de 1975], e para o qual Spínola terá recebido «luz verde do Embaixador dos EUA, Frank Carlucci»*.

Objectivos concretos

Como primeiro patamar para o golpe, está definida a substituição de oficiais vinculados ao MFA por spinolistas no Concelho das Armas e Serviços do Exército. Tal acontece e Soares confessa, posteriormente, ter achado «esses resultados encorajadores»*.

Segue-se o segundo patamar, que incluía o assalto ao Regimento de Artilharia de Lisboa (RAL1), a tomada do Palácio de Belém aquando da chegada dos membros do Conselho dos Vinte para uma reunião com o presidente Costa Gomes, o qual seria convidado a subscrever a exoneração e prisão destes. Acto contínuo, promover-se-ia o regresso de Spínola ao poder donde «proclamaria o estado de sítio, suspenderia as liberdades democráticas, adiaria as eleições para a Assembleia Constituinte marcadas para Abril e anunciaria para Novembro eleições, nas quais simultaneamente o povo português escolheria, de uma só vez, “o presidente da República, a Constituição por que deseja reger-se, o Programa de Governo, que deseja seja executado e os deputados da Assembleia Nacional” (sic) (de um rascunho apreendido na altura do golpe e que, por esta designação de “Assembleia Nacional” e não “Assembleia Constituinte”, se vê ser engano de pessoa vinda do “antigamente»)*.

Provocações e boatos

Pelo País, corriam há meses boatos de que os comunistas queriam instaurar uma ditadura. Provocações dos fascistas, da direita e de grupos esquerdistas manipulados por estes, eram atribuídas ao PCP. O patronato sabotava e lançava uma campanha de intrigas contra os comunistas, o MFA e o III Governo Provisório, liderado por Vasco Gonçalves.

Escassos dias antes do golpe, de Madrid chegam dois oficiais spinolistas - Nuno Barbieri e Carlos Rolo - que tratam de espalhar o boato de que os comunistas preparam brigadas para matar Spínola e centenas de militares e civis incluídos numa suposta lista de contra-revolucionários. A operação chamar-se-ia «matança da Páscoa» e estaria prevista para dia 13 ou 17 de Março, sustentam.
No julgamento dos operacionais do 11 de Março, estes alegam ter recebido tal informação oralmente e no processo não consta a referida lista. «É verdadeiramente inacreditável que nem os oficiais informadores tenham dito, nem ninguém lhes tenha perguntado, quem lhes dera tal informação. Fantástico também que no processo não conste qualquer investigação da sua origem»*.
«Uma questão, que se coloca, é a quem podia aproveitar toda esta operação, toda esta especulação, toda esta pretensa justificação do golpe no dia 11.

«É fácil de concluir. Se o golpe ganhasse, Spínola assumiria plenos poderes, teria julgado e condenado o PCP acusando-o do horrendo crime, que se aprontaria para realizar. A acusação ao PCP de um tal “plano” justificaria, essa sim, uma “matança” dos comunistas para executar a qual, na preparação do golpe spinolista, aparecem referidos “especialistas” preparados e prontos para acções de retaliação e vingança. Se o golpe falhasse, poderiam os golpistas gritar (como vieram a fazer) terem caído numa “armadilha”, numa “ratoeira”, montada pelo PCP…»*.

«A “matança da Páscoa” foi mais uma das grandes e sórdidas mentiras e provocações da contra-revolução que acompanharam sistematicamente todos os seus golpes falhados: o golpe Palma Carlos, o 28 de Setembro, o 11 de Março, o 25 de Novembro.
«Ainda actualmente há quem insista em assim falsear a história. Tudo vale para passar a mentira»*.

Derrota às mãos do povo

Preparado o contexto, na noite do dia 10 de Março, Spínola e os seus oficiais aquartelam-se em Tancos donde lançam a ofensiva. «Helicópteros e aviões bombardeiam o RAL1 considerado um regimento-chave do MFA e do 25 de Abril. Na PSP o comandante participa na provocação, mas é detido pelos outros oficiais. A meio do dia, os pára-quedistas cercam o RAL1, exigem a rendição do regimento e apresentam um ultimato, que o comandante Dinis de Almeida firmemente rejeita. Enquanto os comandantes do RAL1 e dos pára-quedistas discutem, os pára-quedistas são cercados por grande concentração de trabalhadores e da população. Oradores, com relevo para António Dias Lourenço, dirigente do PCP, explicam-lhes que foram enganados. Acabam por largar as armas e abandonar o local. O golpe fora derrotado»*.

Derrotado o golpe às mãos do povo, PS e Mário Soares – que não comparecera à reunião do Conselho de Ministros realizada em São Bento na manhã do golpe, repetindo a ausência registada a 28 de Setembro - negam cumplicidades com a reacção, associam-se às comemorações populares da derrota do 11 de Março e juram a unidade com o PCP. Falam «ao gosto do momento» porque «era necessário aguentar e inserirmo-nos na corrente», confessaria, mais tarde, Soares a Maria João Avillez (MJA)*.

Nova investida

Mas a inserção na corrente logo cedeu lugar à habitual deserção revolucionária e à provocação aberta. Alcançando a maioria na Assembleia Constituinte, o PS revigorou-se e, com PPD e CDS, com grupos esquerdistas e militares de pouca palavra para com Abril, alimentou a campanha de contestação permanente aos governos provisórios seguintes, determinantes no avanço revolucionário com as nacionalizações dos sectores estratégicos da economia nacional.

Logo em Maio de 1975, no Dia do Trabalhador, entram no Estádio 1.º de Maio «de roldão, em puro confronto físico, abrindo caminho ao empurrão, ao soco e aos encontrões», confessa Soares a MJA*. Seguem-se outros episódios da «ruptura de facto» e da «declaração de guerra aberta contra o primeiro-ministro Vasco Gonçalves, contra o PCP e contra o IV Governo Provisório»*.
A 4 de Julho, apesar das advertências de Vasco Gonçalves, Soares comparece numa recepção na embaixada dos EUA em Lisboa. «Os americanos não esqueceram o meu gesto», sublinha a MJA. Dias depois, segue o PPD no abandono do Governo e lança com outros dirigentes do PS uma campanha de difamação do Partido, dos militares progressistas e revolucionários do MFA e do então criado Conselho da Revolução.

«No dia 13 [de Julho], em coordenação com o andamento das coisas e à laia de morteiros da festa, o assalto e destruição do Centro de Trabalho do PCP em Rio Maior dá início ao planeado terrorismo bombista»*. O terrorismo bombista duraria todo o chamado «Verão Quente».

No final de Julho, «forma-se um triunvirato cimeiro do MFA (Costa Gomes, Vasco Lourenço e Otelo)»*. A 8 de Agosto toma posse o V Governo Provisório, mas logo a 27 desse mês o responsável do Comando Operacional do Continente (COPCON), Otelo, retira o apoio a Vasco Gonçalves. Copcon, Grupo dos Nove - cujo manifesto foi difundido na véspera da instalação do V Governo Provisório -, e esquerdistas pseudo-revolucionários partilham louros na liquidação do MFA. Nas ruas, em grandes acções de massas, os trabalhadores e o povo demonstram estar com os avanços revolucionários.

«Com o pronunciamento de Tancos a 2 de Setembro, conseguem finalmente consumar o resultado: Vasco Gonçalves exonerado de primeiro-ministro e de efectivas responsabilidades militares.

«Conseguiram arredar do poder aquele contra o qual, utilizando os mais indignos meios e campanhas, tinham movido uma guerra sem quartel. Sem quartel, porque, firme e corajoso, durante mais de um ano primeiro-ministro nos tempos cruciais da revolução, deu tudo de si próprio para que em Portugal fosse criada uma sociedade mais justa e melhor. Sempre com o povo, que o aclamava “força, força, companheiro Vasco/nós seremos a muralha de aço”.

«Afastaram o general, afastaram o primeiro-ministro. Não afastaram o “companheiro Vasco” do coração de muitas e muitas centenas de milhares de portugueses e portuguesas para quem a gratidão não é uma palavra vã»*.

Resposta necessária

Na batalha ideológica que constitui a avaliação dos factos e o esclarecimento sobre o curso do processo revolucionário, a burguesia destila ódio de classe sobre o controlo operário e as nacionalizações, ocultando que estes se impuseram como a resposta necessária à defesa da democracia, da economia e das liberdades alcançadas, e corresponderam às aspirações populares de criação de um novo modelo de desenvolvimento. Depois de retirado o poder político à contra-revolução, era necessário enfrentar igualmente o poder económico de um punhado de grupos monopolistas associados ao capital estrangeiro, os quais constituíam sólida base de apoio aos partidários do retrocesso.

O controlo operário, apesar de exercido desde os primeiros tempos após o 25 de Abril, manifesta-se inicialmente «pelo saneamento do grande patronato fascista e dos seus agentes directos»**.

«A intervenção dos trabalhadores não pôde porém limitar-se aos saneamentos. Logo teve de alargar o seu âmbito para responder à sabotagem económica e às ofensivas do patronato reaccionário contra os direitos dos trabalhadores»**, estabelecendo-se, «pouco a pouco, em virtude do abandono de empresas pelos patrões, da fuga destes para o estrangeiro, de situações de insolvência ou evidente falência técnica, de desvios e transferências de fundos, de fraudes contabilísticas, da retirada de máquinas e equipamentos, do não aproveitamento de matérias-primas, do esgotamento de stocks, da não aceitação ou do cancelamento de encomendas, do desinteresse na busca de mercados, da degradação económica e financeira e do risco próximo do encerramento das empresas»**.

Foi, na verdade, «uma luta corajosa, tenaz, por vezes heróica»**, de «alto e positivo significado político, social, económico e moral» sem a qual «a democracia portuguesa não teria tido vida longa»**, quer tenha sido exercida em colaboração com as administrações privadas ou nomeadas pelo Estado, quer tenha obrigado à constituição de cooperativas e, portanto, à passagem à autogestão, quer tenha ainda motivado a assunção de funções de gestão fruto da realidade imposta.

Em todo o percurso e nas mais variadas experiências concretas, revelou-se «a par do espírito de organização, da coragem e combatividade, o poderoso espírito criador da classe operária e das massas trabalhadoras»**.

A revolução chega à economia

No mesmo contexto, «as nacionalizações aparecem como resultado do processo revolucionário, como consequência lógica da agudização da luta de classes, que opunha à Revolução portuguesa os grupos monopolistas, o grande capital»**.
Antes do 11 de Março, já se haviam nacionalizado as três entidades emissoras de moeda, mas foi «a derrota da reacção no 11 de Março, o comprometimento do grande capital na conspiração, o súbito avanço das forças revolucionárias, a luta enérgica dos trabalhadores, a acção dos militares do MFA, a aliança Povo-MFA, que permitiram dar início às nacionalizações que, num curto espaço de tempo, abrangeram os sectores básicos da economia nacional»**.

Após a decisão do Conselho da Revolução de nacionalizar os bancos e as companhias de seguros, tomada a 14 e 15 de Março, inicia-se um processo que, com a acção dos trabalhadores e da classe operária aliada à firmeza dos IV e V governos provisórios, colocou ao serviço do povo e do desenvolvimento do País «245 empresas: 24 bancos e outras instituições de crédito, 36 companhias de seguros, 16 de electricidade, 5 de petróleos, 8 de fabricação de produtos minerais não metálicos, 1 de fabricação de vidro, 1 na indústria do ferro e aço, 2 de construção de material de transportes, 2 mineiras, 4 de produtos químicos, 6 de celulose e papel, 5 de tabaco, 7 de bebidas, 8 de pesca, 1 da agricultura, 96 de transportes terrestres, 8 de transportes marítimos, 1 de transportes aéreos, 10 de cinema e televisão, 4 editoras e tipografias»**.

Este forte Sector Empresarial do Estado (SEE), a par das centenas de empresas intervencionadas, de capitais públicos ou participadas, gerou potencialidades para atacar grandes carências, criou milhares de postos de trabalho e, mesmo atacado visando a sua liquidação, permitiu a racionalização dos recursos existentes no interesse do progresso e da melhoria das condições de vida, não apenas dos trabalhadores dessas empresas, mas da maioria da população.

As consequências da política de direita que nos últimos 34 anos serviu a restauração capitalista estão a mostrar que, no actual contexto de crise, a existência de um sector público forte e capaz de retirar o País do declínio, dos défices estruturais e da dependência estrangeira, mantém-se com aguda actualidade.

(*) Álvaro Cunhal, «A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A contra-revolução confessa-se)», Edições Avante!, Lisboa, 1999
(**) Álvaro Cunhal, «A Revolução Portuguesa – O Passado e o Futuro», Edições Avante!, Lisboa, 1994

Quarta-feira, 01 DE Abril DE 2009

A Ditadura Militar brasileira, 45 anos depois do golpe de 1964 (parte 3)

(IV)

A Operação Bandeirante - OBAN foi um centro de informações, investigações e de torturas montado pelo Exército do Brasil em 1969, que a coordenava e integrava as ações dos órgãos de combate às organizações armadas de esquerda que tinham por objetivo confrontar o regime ditatorial que vigorava desde 1964 no Brasil.

A entidade foi financiada em 1971 por alguns empresários, como Henning Albert Boilesen, da Ultragás, que teria sido assassinado em São Paulo sob a acusação de ter sido um dos financiadores da OBAN.

Seu membro mais famoso foi o major Carlos Alberto Brilhante Ustra.

 História

A OBAN foi lançada oficialmente em junho de 1969. Teriam participado do ato de lançamento da OBAN, no dia 1º de julho de 1969, em São Paulo, o governador da época, Roberto Costa de Abreu Sodré, o secretário de Segurança Pública, Hely Lopes Meireles, o general José Canavarro Pereira, comandante do II Exército, e os comandantes do VI Distrito Naval e da 4ª Zona Aérea.

No entanto, o ex-governador Abreu Sodré negou qualquer envolvimento com a OBAN. O prefeito da capital paulista à época, Paulo Maluf, também refutou as versões de que teria dado apoio à iniciativa. Nada foi apurado oficialmente contra esse dois políticos.

As ordens para a montagem de um organismo que reunisse elementos das Forças Armadas, da Polícia Estadual - civil e militar - e da Polícia Federal para o trabalho específico de combate à subversão, foram dadas ao final de 1968 pelo Ministro da Justiça, professor Luís Antônio da Gama e Silva, numa reunião dos secretários de Segurança em Brasília, e pelo general Carlos de Meira Matos, que estava na chefia da Inspetoria Geral das Polícias Militares. A reunião, chamada "Seminário de Segurança Interna", discutiu toda uma estratégia de combate aos opositores do regime.

Sua sede foi instalada no número 1030 da rua Tomás Carvalhal, nos fundos do 36° distrito policial, na capital paulista.

Este local é considerado a mais célebre casa de torturas e de assassinatos da ditadura e no paradigma dos órgãos de segurança da ditadura militar.

Seu primeiro comandante foi o tenente-coronel do Exército Waldir Coelho Pode-se dizer que a partir daí o Exército entrou de corpo inteiro no combate às forças de esquerda e principalmente, naquele momento, às que se dispunham a desenvolver a luta armada para a implantação de uma ditadura comunista no Brasil. Mas não apenas estas: professores universitários eram vigiados e frequentemente abordados por agentes da organização.

Sem vínculos formais, ou legais,a OBAN era em essência uma formação paramilitar de ação direta e violenta à margem da lei, o que lhe dava agilidade e brutal eficácia.

Era financiada por doadores privados como o Grupo Ultragás, Ford, GM e Grupo Camargo Corrêa, entre outros e pelos bens tomados de suas vítimas. Entre os doadores, haviam os que apoiavam com entusiasmo a repressão e outros que contribuíam a contragosto, sob pressão.[carece de fontes?]

Entre esses doadores, destaca-se a figura de Henning Albert Boilesen, dinamarquês naturalizado brasileiro, diretor do Grupo Ultra. Segundo versões, contestadas por sua família e nunca apuradas oficialmente, chegou a participar de sessões de tortura e teria inventado uma ferramenta de tortura que levou seu nome: a Pianola de Boilesen, uma espécie de teclado que emitia choques elétricos em quem o premesse. Também faz parte do imaginário esquerdista a filiação do empresário como colaborador da CIA.

Em 15 de abril de 1971 ele foi morto na capital paulista por militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), comandada por Carlos Lamarca.

Investigações posteriores revelaram que Lamarca planejava executar ainda os empresários Pery Igel e Sebastião Camargo, que também supostamente davam suporte financeiro à repressão aos grupos armados de esquerda.

Em 1970, a OBAN, embora ainda conhecida como tal, ela já está mais legalizada. Esta enquadrada pelo Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). Funciona ainda como OBAN, mas ao colocá-la sob a jurisdição do DOI-CODI, pretendia-se diminuir a sua autonomia, o que ´na prática não acontecerá. Em 1970, quem comanda a OBAN – oficialmente o DOI-CODI – é Carlos Alberto Brilhante Ustra, major de artilharia do Exército, conhecido também, nas rodas da tortura, pelos codinomes de Major, Doutor Silva e Doutor Tibiriçá.

A ação da OBAN, como dos demais órgãos de repressão aos grupos terroristas de esquerda, só começou a arrefecer para enfim cessar a partir da abertura lenta e gradual promovida pelo presidente Ernesto Geisel. A morte de sua principal autoridade civil, o delegado Sérgio Paranhos Fleury, sepultou a história daquele período.

Parte desta história começou a ser revelada no início dos anos 90 com a descoberta da vala clandestina do cemitério de Perus e as investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara Municipal. Corpos de indigentes, vítimas do esquadrão da morte e presos políticos, mostravam que a vala foi depósito de todo tipo de violência do regime militar

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Brasil: O museu da tortura

 

Reportagem: Daniel Zanini H. Imagenes e edição: Karine Batista ... tortura museu brasil brazil ditadura militar tel esur ...

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http://www.youtube.com/v/jXRkJ6m01MQ&hl=pt-br&fs=1"></param><param

 

Memórias da Ditadura

Memórias da Ditadura

(clique)

http://www.youtube.com/v/itCbMSezTus&hl=pt-br&fs=1"></param><param

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publicado por Rojo às 09:04
Domingo, 29 DE Março DE 2009

A Ditadura Militar brasileira, 45 anos depois do golpe de 1964 (parte 2)

(III)

A oposição parte para a luta armada

 

O que significa viver sob uma ditadura militar? É exagerado achar que a toda hora tem tanque na rua, soldados desfilando dentro das faculdades. Aparentemente não muda muita coisa, porque você vai às compras, ao dentista, à praia e ao cinema, namora e casa, vê tel evisão. A não ser o fato de que seu vizinho é oficial do Exército e você sabe que por isso ele manda aqui no prédio (e isso pode ser até bom para a vizinhança), o resto parece bem normal. Mas, se você tiver um pingo de consciência, desconfia que as coisas não vão bem. Existe um cheirinho de esquisitice: as pessoas falam baixo, há uma nuvem de mistério cobrindo o país, o estômago fica pesado demais.

Depois de 1964 ainda dava para fazer umas passeatazinhas e desafiar o regime. Depois do AI-5 (dezembro de 1968) o regime tinha fechado de vez. Passeata era dissolvida a tiros de fuzil. Em cada redação de jornal havia um imbecil da polícia federal para fazer a censura, Não poderia sair nenhuma notícia que desagradasse ao governo. Uma simples reportagem esportiva sobre o time do Internacional de Porto Alegre, com sua camisa vermelha, poderia ser encarada como “propaganda da Internacional Comunista”. Além da censura, o jornal não podia dizer que tinha sofrido a censura (isso, claro, também era censurado). O jeito foi botar receitas de bolo nos vazios deixados pelas partes retiradas pela polícia. As pessoas estavam lendo uma página sobre política nacional e, de repente, vinha aquela absurda receita para fazer uma torta de abacaxi. Os espertos sacavam logo que era um protesto. Os mais ingênuos (por conivência ou conveniência, chegavam a mandar cartas para as redações dos jornais, pois as receitas, por vezes, eram irracionais: “cinco quilos de açúcar, 100 g de farinha de trigo, dois quilos de sal, vinte tabletes de fermento, uma colher de chá de suco de laranja...” Não há receita que dê certo assim, hehehe. Claro que existem ainda hoje ingênuos ainda mais imbecis, que declaram coisas como: “naquele tempo o governo era muito melhor do que hoje. Bastava abrir os jornais, eles só tinham elogios para o governo. Aliás, também tinham receitas de bolo muito boas.”

Ninguém podia falar mal do governo. Reclamação na fila do ônibus era uma linha até à cadeia. Estudantes e professor es que conversassem sobre política poderiam ser expulsos da escola ou da faculdade, devido ao decreto-lei nº 477 (1969), Imagine o clima dentro da sala de aula. Se o professor contasse aos alunos o que você está lendo neste livro, corria o sério risco de não poder voltar mais à sala de aula. Ou mesmo para a sua própria casa...

_ O que você acha da situação atual?

_ Eu não acho nada! Tinha um amigo que achava muito e hoje ninguém acha ele! To fora!

Qualquer aluno novo que tentasse se enturmar era logo suspeito de pertencer ao SNI. Veja que coisa, a ditadura tolheu até as novas amizades! O político que fizesse oposição aguda seria logo cassado pelo AI-5. Foi o caso, por exemplo, do deputado federal Francisco Pinto (MDB), punido em 1974 porque fez no Congresso um discurso chamando de “ditador” o ditador chileno Pinochet em visita ao Brasil , o deputado Lysâneas Maciel (MDB) solicitou a criação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar denúncias de corrupção no regime. Não teve CPI nenhuma e ele ainda foi cassado. É isso aí: numa ditadura, a sociedade não pode fiscalizar o governo. Os cidadãos estão enjaulados, mas a corrupção está livre.

Com tantas dificuldades, como continuar fazendo oposição ao regime? Para muitos jovens, só havia um caminho a seguir: a luta armada. Falar em guerrilha nos anos 60 arrepiava muita gente. Ela parecia ser a grande arma de libertação dos povos do Terceiro Mundo. Exemplos não faltavam. Em Cuba, Fidel Castro e Che Guevara abriram o caminho: No Vietnã, os guerrilheiros de Ho Chi (Minh derrotavam a maior máquina de guerra do planeta, a do imperialismo norte-americano. Na Argélia, os guerrilheiros dobraram as tropas francesas e conquistaram a independência do país. Na própria China, a revolução socialista foi vitoriosa depois de anos de guerrilha camponesa comandada por Mao Tsetung. No Brasil não poderia ser diferente: muitos estudantes, velhos militantes da esquerda e in tel ectuais começaram a organizar grupos guerrilheiros. Para eles, depois do AI-5 não havia mais espaço para a legalidade. Só a luta armada libertaria o Brasil.

Ao contrário do que você possa pensar, o PCB foi contra a luta armada. Os comunistas acreditavam que a luta no momento não era nem socialismo nem reformas básicas, mas pelo fim do regime autoritário. Sua estratégia era a de se unir a todos os grupos democráticos contra o regime. Atuaria, clandestino, no MDB. Muita gente da esquerda considerou esse programa covarde, reformista (um xingamento horroroso, pois isso equivaleria a não ser um revolucionário. Mas naquele momento os comunistas eram qualquer coisa, menos revolucionários. ..). A juventude queria a mudança logo, a todo preço. E foram esses jovens, e  ainda, estudantes , intelectuais, operários e camponeses, que foram a luta armada. Um dos grandes gurus era o francês Regis Debray, que tinha sido companheiro de guerrilha de Che Guevara. Foi ele que lançou a teoria foquista: meia dúzia de combatentes criariam um foco guerrilheiro numa área rural. Primeira etapa, o treinamento militar. Depois, contato com a população. Ganham a confiança através do trabalho, da honestidade, de solidariedade. Imagine o efeito disso: o camponês jamais viu um médico e, de repente, aquelas pessoas o tratam com cuidado, curam seus filhos. Nesse processo, os guerrilheiros vão transmitindo suas idéias, mostrando que o latifúndio deveria ser confiscado, que os camponeses precisam se unir e se armar. E quando chegam os jagunços do fazendeiro, os guerrilheiros estão prontos para responder com fogo de armas de guerra, Pronto, está deflagrada a luta. Agora, junto com os camponeses que aderem ao movimento, eles se lançam para o mato. O Exército chega logo depois, quase sempre truculento: tortura moradores, incendeia barracos, molesta as meninas. O povo vê com clareza quem está do lado dele. Os guerrilheiros, por sua vez, nunca enfrentam o Exército de frente. As táticas incluem emboscadas, ações rápidas e fulminantes. Depois,  a fuga veloz: sua mobilidade e ataques de surpresa são armas letais. Conhecem a região, contam com o apoio logístico dos moradores. Quase invencíveis. Mas este é um foco. A teoria foquista imaginava que surgiria outro foco ali, e mais outro adiante, e outro, e outro. Até que um dia esses focos começariam a se unir para compor um grande exército popular. Tal como ensinou Mao Tsetung, o campo cercaria a cidade. E a revolução seria vitoriosa.

Quem eram esses guerrilheiros? Não eram muitos, apenas algumas centenas. Os simpatizantes, que eventualmente podiam esconder alguém em casa ou contribuir com dinheiro, não iam além de uns mil e poucos. Apesar de sonharem com a revolução proletária, havia poucos operários ou camponeses. Os líderes geralmente eram antigos comunistas, rompidos com o Partidão porque o PCB estava contra a luta armada. Ainda tinha um grupo importante de militares desertores do Exército. Muitos guerrilheiros eram como talvez você seja, amigo leitor, com 17 ou 18 anos de idade, estudantes secundaristas ou acabando de entrar na faculdade. A maioria dos guerrilheiros foi presa antes de começar a luta armada no campo. Na verdade, a guerrilha ficou sendo urbana mesmo.  A repressão do governo agia com muita eficácia e em alguns anos os grupos foram desman tel ados. No final, tinham de assaltar bancos para levantar fundos para a luta e seqüestrar embaixadores em troca da libertação de presos políticos.

A  tentativa que teve mais consistência foi a Guerrilha do Araguaia. Ela se desenvolveu mais ou menos entre 1972 e 1974, organizada pelo PC do B. Lembremos que, na época, ao contrário do PCB (que era de linha soviética e contra a luta armada) o PC do B seguia o socialismo chinês (o maoísmo) e apoiava a guerrilha. Pois bem, no começo dos anos 70, grandes empresas do Sudeste e multinacionais investiram em pecuária extensiva na região do Tocantins-Araguaia. Quando chegaram lá, já havia pequenas roças na mão de camponesesposseiros (não tinham documentos legais da propriedade da terra, apesar de trabalharem nelas havia muitos anos). Nem quiseram saber, passaram a fazer grilagem das terras (tomar ilegalmente) . Quando o camponês não queria abandonar a terra, os capangas da empresa iam lá, ateavam fogo no barraco, destruíam a plantação, espancavam os moradores. Como você pode perceber, as lutas de classes entre os grileiros e os posseiros eram muito fortes. O PC do B quis aproveitar esse  potencial de revolta e chegou na região para montar uma base de treinamento. Foram descobertos pelo Exército, que deslocou para região milhares de soldados. Contra uns 60 guerrilheiros. Numa região isolada do país, imprensa censurada, as pessoas só sabiam alguma coisa através de boatos. Mas na região do Araguaia até hoje as pessoas humildes se recordam do que aconteceu. Muitos militares abusaram do poder e espancaram brutalmente a população para que revelasse os esconderijos dos guerrilheiros. Os prisioneiros eram torturados de forma bárbara e muitos encontraram a morte depois que o corpo virou uma massa de pedaços de carne e sangue. Os guerrilheiros mortos foram enterrados em cemitérios clandestinos e até hoje as famílias procuram seus corpos. Em 1974, a guerrilha do Araguaia estava destruída.

O que dizer sobre essa loucura toda? Foram rapazes e moças, muitos ainda adolescentes, que tiveram a coragem de abandonar o conforto do lar, a segurança de uma vida encaminhada, a tranqüilidade da vida de jovem de classe média, para combater um regime opressor com armas na mão. Pessoas que dão a vida pelo ideal de libertação de seu povo não podem ser consideradas criminosas. Mesmo que a gente não concorde com os caminhos trilhados. Eles mataram? Certamente. Mas nunca torturaram. Nem enterraram suas vítimas em cemitérios clandestinos. E se o tivessem feito, nada disso justificaria a tortura e o assassinato executados pelo governo. Além disso,  seria mesmo inadmissível pegar em armas contra um regime antidemocrático que esmagava o povo brasileiro? Que moral uma ditadura tem para definir como deve ser combatida?

 

Repressão e Tortura

Como é que a ditadura conseguiu dizimar a guerrilha? A repressão foi selvagem.

Imagine que você fosse um guerrilheiro naquela época. Documento falso, revólver escondido na cintura, olhar assustado para qualquer pessoa da rua. Distante da família, dos amigos, de qualquer conhecido. Clandestino. Codinome, ou seja, nome inventado, nem os companheiros sabiam sua identidade. Se fossem presos, não poderiam te revelar. Vocês se escondem num apartamento discreto no subúrbio. E mudam de residência quase todo o mês. Esse esconderijo é chamado de “aparelho”. Um dia, você tem um ponto, ou seja, um encontro marcado com outro guerrilheiro. Ele não aparece. Provavelmente, caiu (foi preso). Em algumas horas, debaixo de paulada, pode ser que ele abra. Os meganhas logo vão chegar. É preciso desativar o aparelho rápido. De repente, chega a polícia. Tiroteio. Mortes. Se você escapar com vida, vai direto para o porão. Agora sim, você vai sentir na pele a face mais negra do regime. A tortura. Não houve guerrilheiro preso que não fosse barbaramente torturado. Ficar pendurado no pau-de-arara (um cavalete em que o sujeito fica preso pela barra que passa na dobra do joelho, com pés e mãos amarrados juntos) é um dos piores suplícios. Além disso, pontapés, queimaduras de cigarros, choques elétricos, alicates arrancando os mamilos, banhos de ácido, testículos amassados com alicate, arame em brasa introduzido pela uretra, dente arrancado a pontapés, olhos vazados com socos. Mulheres estupradas na frente dos filhos, homens castrados. A lista de atrocidades é infindável. Os torturadores são animais sádicos. Mas além da maldade pura e simples, havia a necessidade estratégica: a tortura extraía confissões em pouco tempo, dando oportunidade de prender outras pessoas, que também seriam torturadas, revelando mais coisas e assim por diante. Infelizmente, a tortura revelou-se bem eficaz. Houve muita gente, entretanto, que nada falou. Veja bem, amigo leitor, bastava contar tudo que a tortura acabaria. Essa era a diabólica proposta. Imagine-se no lugar do preso, apanhando feito um cão, nu, sangrando, com a cabeça enfiada num balde cheio de fezes e vômito dos outros. Algumas frases e você seria mandado para um hospital. No entanto, muitos não falaram. Bravamente, recusaram-se a colaborar com a repressão. Morto sob tortura tinha o caixão lacrado para ninguém ver o cadáver arrebentado. O laudo oficial do IML, emitido por médicos venais comprometidos com a ditadura dizia friamente que a morte tinha ocorrido “em tiroteio com a polícia”.

Uma geração que pagou um alto preço por seus sonhos: pagou com o próprio sangue. Por isso, amigo leitor, se hoje eu posso escrever essas linhas, se hoje você pode dizer o que pensa, saiba que entre os responsáveis por nossa liberdade estão aqueles que deram sua vida para que um dia o país não estivesse mais sob o jugo das botas da tirania.

Mas, afinal, quem eram os torturadores? Onde as pessoas eram torturadas? Ao contrário do que se possa pensar, a tortura não era feita em algum lugar escondido, uma casa de subúrbio ou uma fazenda afastada de tudo. Não, infelizmente as pessoas eram torturadas em lugares públicos, na frente de muitas testemunhas. Como Mário Alves, dirigente do PCBR, torturado até a morte nas dependências do Primeiro Batalhão de Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, Tijuca, Rio de Janeiro. Reparou no local? Um quar tel do Exército! Como também aconteceu em delegacias, em bases da Marinha. Através da Operação Bandeirantes (OBAN), do DOI-CODI, dos Serviços de Informação das Forças Armadas (CENIMAR, CISA, CIEX), do DOPS e do SNI, o governo exterminou a guerrilha com brutalidade.

Claro que a maioria dos militares não teve nenhum envolvimento com a tortura. Muitos sequer sabiam que ela estava acontecendo. Mas é inegável que os torturadores ocupavam importantes posições no aparelho repressivo do Estado: eram policiais civis, PMs, agentes da polícia federal, delegados, oficiais e sargentos da Marinha, do Exército, da Aeronáutica, médicos que avaliavam a saúde da vítima e autorizavam a continuação da tortura.

Muito triste é saber que alguns desses monstros permanecem na polícia, nas Forças Armadas e que foram anistiados pelo general Figueiredo em 1979. Neste país, jamais um torturador sentou no banco dos réus.

A ditadura não se manteve só com violência física. Ela soube se valer de uma propaganda ideológica massacrante. Numa época em que todas as críticas ao governo eram censuradas, os jornais, a tevê, os rádios e revistas transmitiam a idéia de que o Brasil tinha encontrado um caminho maravilhoso de desenvolvimento e progresso. Reportagens sobre grandes obras do governo e o crescimento econômico do país convenciam a população de que vivíamos numa época incrível. Nas ruas, as pessoas cantavam: “Ninguém segura esse país.” Os guerrilheiros eram apresentados como “terroristas”, “inimigos da pátria”, “agentes subversivos”. Qualquer crítica era vista como “coisa de comunista”, de “baderneiro”. Houve até quem chegasse ao cúmulo de acusar os comunistas de responsáveis pela difusão das drogas e da pornografia! O futebol, como não poderia deixar de ser, foi utilizado como arma de propaganda ideológica. Na época, a esquerda se perguntava: “O futebol aliena os trabalhadores, é o ópio do povo?” E houve até quem torcesse para que o Brasil perdesse a Copa: como se o trabalhador brasileiro precisasse de uma derrota no jogo de futebol para realmente se sentir oprimido! Ou seja, quem estava supervalorizando o futebol: o povão ou a esquerda? De qualquer modo, meu amigo, aquela seleção brasileira de 1970 foi simplesmente o maior time de futebol que já existiu. Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson, Rivelino, Clodoaldo, Carlos Alberto Torres, seus craques são inesquecíveis. O tricampeonato conquistado na Copa do México encheu o país de euforia. Nas casas (pela primeira vez a Copa foi transmitida ao vivo pela tel evisão) e ruas o povo explodia de alegria e cantava: “Todos juntos, vamos / Pra frente Brasil..” Os homens do governo, claro, trataram logo de aparecer em centenas de fotos ao lado dos craques. Queriam que o país tivesse a impressão de que só tínhamos ganho a Copa graças à ditadura militar (embora as vitórias de 1958 e 1962 tivessem sido no tempo da democracia, com JK e Jango). O prefeito de São Paulo , Paulo (que não era São) Maluf, resolveu dar para cada jogador um automóvel zero quilômetro de presente. O presidente Médici, vestido com a camisa rubronegra do Flamengo, era aplaudido de pé por parte da torcida no Maracanã. Triste país, o general chutava a bola, os torturadores chutavam os presos. Além do futebol, os brasileiros conheceram uma nova paixão, o automobilismo. Até hoje, o mundo só teve um único piloto capaz de vencer na sua estréia na Fórmula 1: o nosso Émerson Fittipaldi, campeão mundial em 1972 e 1974. Nas escolas vivia-se um clima de ufanismo (exaltação da pátria). Todo mundo tinha de acreditar que o Brasil estava se tornando um país maravilhoso. Nos vidros dos carros, os adesivos diziam: “Brasil - Ame-o ou Deixe-o!” É como se os perseguidos políticos foragidos tivessem se exilado por antipatriotismo. Um pontapé na verdade. Claro que essa euforia toda no começo dos anos 70 não vinha só das vitórias esportivas e da máquina de propaganda do governo. Em realidade, o país vivia a excitação de um crescimento econômico espetacular. Era o tempo do “milagre econômico”.

 

Governo General Emílio Garrastazu Médici (1969 – 1974)

 

 

Costa e Silva não teve muito tempo para se alegrar com os efeitos do AI-5. um derrame o matou, em agosto de 1969. O povo não teve tempo de se alegrar; uma Junta Militar, comandada pelo general Lyra Tavares, assumiu o governo até se nomear o novo general-presidente. 0 vice de Costa e Silva, o civil Pedro Aleixo (ex-UDN), não tinha apoiado totalmente o AI5 e por isso fora jogado para escanteio. No mesmo ano, ocorreu a Emenda Constitucional nº 1, que alguns juristas consideram quase como uma nova Constituição. Ela legalizou o arbítrio e os poderes totalitários da ditadura. Todas aquelas medidas arbitrárias tipo AI-5 e 477 foram incorporadas à Constituição. Além disso, ela estabeleceu que o presidente podia baixar medidas (decretos-leis) que valeriam imediatamente. 0 Congresso disporia de 60 dias para examinar o decreto. O Congresso tinha 60 dias para votar a aprovação. Se depois desse prazo não tivesse havido votação (o Congresso poderia, por exemplo, estar fechado pelo AI-5, ou com número insuficiente de membros comparecendo às sessões), ele seria automaticamente aprovado por decurso de prazo.

Dias depois, era indicado o novo chefe supremo do país. O novo presidente era o general Emílio Garrastazu Médici. Seu governo teve dois pontos de destaque: o extermínio  da guerrilha e o crescimento econômico espetacular (o “milagre”). Nenhuma época do regime militar foi tão repressora e brutal, Nunca se torturou e assassinou tanto. Nos porões do regime, as pessoas tinham suas vidas postas na marca do pênalti. E assim os órgãos de re-pressão marcaram gols, liquidando guerrilheiros como Marighella (4/11/69), Mário Alves (16/11/70) e Lamarca (17/09/71).

 Na economia, o ministro Delfim Netto comandou o milagre econômico. A produção crescia e se modernizava num ritmo espetacular. A inflação, dentro dos padrões brasileiros, até que era moderada, lá na casa dos vinte e tantos por cento. Construía-se com euforia. Obras, como a ponte Rio-Niterói, a rodovia Transamazônica, a refinaria de Paulínia e a instalação da tevê em cores (1972), pareciam mostrar que a prosperidade seria eterna. A classe média comprava ações na Bolsa de Val ores e imaginava se tornar grande capitalista. Para acelerar o crescimento, ampliaram-se as empresas estatais ou criaram-se novas, principalmente na produção de aço, petróleo, eletricidade, estradas, mineração e tel ecomunicações. Os nomes delas você já ouviu falar: Petrobrás, Eletrobrás, Telebrás, Correios, Val e do Rio Doce, Companhia Siderúrgica Nacional, Usiminas e tantos outros. Crescimento e modernização que não beneficiavam as classes trabalhadoras. Pelo contrário, quanto mais o país crescia, tanto mais piorava a vida do povo. Em 1969, por exemplo, o salário mínimo só valia 42% do que representava em 1959, Em 1974, isso desceu para 36%. Os ricos foram ficando cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres, A ditadura foi uma espécie de Robin Hood às avessas. Essa distribuição de renda ao contrário era facilitada pelo fato de que não havia nenhuma greve, nem sindicato independente, nem a oposição no Congresso tinha margem de manobra. Era uma ditadura que fazia uma coisa incrível: o país crescia como poucos no mundo e quanto mais riquezas eram produzidas, mais difícil ficava a vida dos trabalhadores.

E a Rede Globo, principal aliada da Ditadura, sempre lembrando ao povo miserável que "está tudo bem"...

Até nos países mais pobres da África, a mortalidade infantil diminuía. Nas grandes cidades brasileiras ela crescia, Quanto mais a renda per capita do Brasil aumentava, mais as crianças pobres morriam porque comiam pouco, não eram vacinadas, não tinham médico, De repente, houve uma epidemia de meningite, Doença que pode matar, É preciso que os pais estejam alerta. O que fez a ditadura? Proibiu que os jornais divulgassem qualquer notícia a respeito. O povo tinha de ser enganado pela imagem de que no Brasil a saúde pública estava sob controle, o que veio em seguida era previsível: os pais, sem saber do surto da doença, não davam muita importância para aquela febrezinha do filho, Achavam que era só uma gripe, Não levavam para o posto de saúde, Até que a criança morria, A meningite mataria milhares de meninos e meninas no Brasil, numa das mais terríveis epidemias do século, Só esse caso já mostra o quanto a ditadura era absurda, não é mesmo?

O ministro Delfim Netto dizia que era para o povo ter paciência: “temos de esperar o bolo crescer para depois distribuir os pedaços”. E até hoje o povão está esperando sua fatia. Pois é, na cara-de-pau, o general-presidente Médici dizia: “A economia vai bem, só o povo é que vai mal.” Viu? Uma coisinha à toa é que ia mal, um trocinho assim, sem importância, uma poeirinha desprezível chamada povo... Grande parte da classe média até que gostava daquilo tudo. Afinal, a ditadura, além de modernizar a indústria de base, estimulou a de bens de consumo duráveis. Maravilha das maravilhas: a família de classe média se realizava existencialmente comprando tevê em cores (desde 1972), aparelhagens de som, automóveis, eletrodomésticos. E até a classe operária foi arrastada nesse processo de crença na ascensão social baseada na aquisição do radinho de pilha ou do tênis maneiro,

A megalomania planejava as obras estatais, Assim como os cabelos eram compridos e as barras das calças eram “boca-de-sino” , as obras eram gigantescas, o governo fazia estádios de futebol em tudo quanto era canto, mas as escolas caíam aos pedaços, A rodovia Transamazônica, importante para iniciar a colonização da Amazônia, não incluiu nenhum projeto de proteção ao meio-ambiente, aos índios, aos camponeses e aos garimpeiros. A ponte Rio-Niterói (1974) foi realmente funda mental para ligar a economia do Nordeste do país ao Sudeste industrial (RJ e SP), mas ela custou uma fortuna. Certamente teria sido mais barata se as contas tivessem sido controladas democraticamente. Muita empresa construtora se deu bem fazendo essa obra encomendada pelo governo, Aliás, em quase todas essas obras faraônicas (ou seja, enormes, caras e quase inúteis, tal como as antigas pirâmides dos faraós do Egito) houve esquemas para homens do governo e firmas de engenharia civil ganharem uma boa grana por fora. Velha história: sem democracia a roubalheira rola solta porque não há imprensa livre, Congresso independente.

Um tratamento especial foi dado às empresas multinacionais (estrangeiras) . Elas tiveram mais favores do governo do que as empresas nacionais! O que não é de se espantar, pois grande parte dos homens do poder eram profundamente ligados aos grupos estrangeiros e não hesitaram em usar sua influência. Ana listas como Ricardo Bueno e Moniz Bandeira chegaram a considerar os ministros Delfim Netto, Mário Henrique Simonsen (que o presidente Collor queria para seu ministro), Golbery do Couto e Silva, Roberto Campos e outros como “notórios entreguistas” , ou seja, responsáveis conscientes pelo favorecimento escancarado do governo aos monopólios estrangeiros, É claro que hoje em dia não se pode ter mais aquela visão de ódio total às multinacionais. Afinal, com a internacionalizaçã o da economia, ou seja, a ligação econômica direta entre quase todos os países e continentes, elas se tornaram peças fundamentais da economia mundial. Inclusive, porque parecem realmente ser úteis parceiras em alguns setores, já que nenhum país pode ter sozinho tecnologia e capital para produzir tudo. Todavia, é sensato esclarecer alguns pontos: por que elas são as responsáveis por grande parte da dívida externa brasileira? Será benéfico o governo pedir dinheiro emprestado aos banqueiros internacionais para fazer obras gigantescas a favor das multinacionais? Ou simplesmente para financiá-las? Será correto que elas mandem para fora lucros de bilhões de dólares, em vez de aqui reinvestir? Será interessante o seu poder de levar à falência as empresas nacionais, através de uma concorrência desleal? Será que elas realmente nos transferem tecnologia ou só mandam pacotes prontos feitos nos seus laboratórios? Será que elas não mandam dinheiro escondido "por debaixo do pano"? Será que não interferem na nossa vida interna, combatendo governos que não lhes interessam, mesmo se estes forem a favor do povo? Será saudável que produzam aqui remédios e produtos químicos proibidos em seus países de origem? Por que será que um operário da Volkswagen ou da Ford no Brasil faz o mesmo serviço, nos mesmos ritmos e níveis de tecnologia, que operários dessas empresas na Alemanha ou nos EUA e, no entanto, ganha tão menos? Tantas perguntas...

Bem, aí estava o “milagre econômico”: modernização, crescimento acelerado, inflação moderada, facilidades para o investimento estrangeiro, e também ricos mais ricos e pobres mais pobres e aumento da dívida externa. Você reparou que era um esquema parecido com o que já havia no tempo de Juscelino Kubitschek? O desenvolvimento espetacular das tel ecomunicações e da indústria de bens de consumo duráveis (automóveis, eletrodomésticos, prédios de luxo e mansões financiados pelo BNH) eram voltados principalmente para a classe média e superior. Milhões de brasileiros estavam meia por fora desse mercado. Claro, portanto, que essa festa não iria durar muito. 0 modelo se esgotava e a crise chegava mais rápido do que o Émerson Fittipaldi.

Governo do General Ernesto Geisel ( 1974 – 1979 )

O novo general-presidente, Ernesto Geisel, assumiu o governo num momento difícil da economia do Brasil e do mundo, Para alimentar o crescimento, ele pediu emprestado aos banqueiros estrangeiros e tratou de emitir papel-moeda. A inflação começou a aumentar e a engolir salários. Era o fim do “milagre econômico”. Agora, a insatisfação crescia. Isso ficava claro com o aumento de votos do MDB. Geisel percebeu que a ditadura estava chegando ao fim de sua vida útil. O jeito era acabar com o regime mas manter as coisas sob controle. Com ele, começaria a “distensão lenta e gradual”.

O ano de 1973 assinalou o inicio de um choque na economia capitalista mundial. Parecida com a de 1929, mas com efeitos bem menores para os países capitalistas desenvolvidos, que empurraram a crise para cima do Terceiro Mundo. De certa forma, os apertos econômicos dos países subdesenvolvidos, nos anos 90, foram continuação do processo de 1973. Tentaram botar a culpa nos árabes, porque eles aumentaram os preços do petróleo: Conversa fiada. O aumento foi apenas a recuperação de preços, que vinham caindo muito, desde os anos 50. Para você ter uma idéia, antes do aumento imposto pela OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) em 1973, o preço do barril de petróleo no mercado mundial era inferior ao do barril de água mineral! Claro que o aumento dos preços pegou todo mundo de surpresa, aumentou os custos, cortou os lucros, provocando inflação e desemprego. A crise do petróleo reforçou a crise geral do capitalismo em 1973. Mas com certeza a crise não foi só energética. Afinal, países exportadores de petróleo também entraram em crise! O que aconteceu foi uma crise clássica de superprodução de mercadorias, tal como ocorrera em 1929. Depois da Segunda Guerra, os EUA representavam metade da produção econômica mundial. Mas nos anos seguintes a Europa Ocidental recuperou plenamente sua economia. Surgiu também um grande competidor, o Japão. De repente, o mercado mundial ficou apertado, não havia como continuar investindo capital nos mesmos ritmos. As mercadorias começaram a ficar encalhadas e logo vieram as falências, a inflação, a recessão. Aqui no Brasil, o governo botava a culpa nos outros. Dizia que a crise era mundial. Certo. Mas por que aqui ela era tão devastadora? Porque a política econômica da ditadura nos tornava indefesos. O petróleo não representava nem 25% das nossas importações em 1975. Além disso, não só aumentou nossa produção interna, como seus preços internacionais cairiam nos anos 80. No entanto, a crise foi aumentando, ano após ano. Uma coisa tão braba que o nosso jovem leitor com certeza viveu a maior parte de sua vida sob o signo da crise econômica brasileira.

O que acontece é que o modelo econômico da ditadura era baseado no pequeno mercado interno, representado pelos ricos e pela classe média. O país estava se transformando na Belíndia, uma mistura da Bélgica com a Índia: uma quantidade razoável de pessoas (classe média e superior) com padrão de consumo de país desenvolvido, vivendo numa área com grandes centros industriais e financeiros, ou seja, a parte do Brasil parecida com a Bélgica, e a gigantesca maioria (classe média baixa e classes inferiores) com

padrão de vida muito baixo, milhões vivendo tão miseravelmente como na Índia. Tinha-se alcançado um estágio em que não dava para aumentar a produção, por falta de consumidores aqui dentro. A Bélgica da Belíndia era pequena e a Índia da Belíndia era cada vez maior. Como produzir mais automóveis se a maioria dos brasileiros não tinha dinheiro para comprá-los? Ficava claro que só havia um jeito de ampliar o mercado consumidor: distribuindo renda. Para isso, seria preciso tocar em privilégios, mexer em interesses poderosos. Então , o regime militar não faria nada disso.

O governo preferiu outro caminho. Para a economia não entrar em recessão, isto é, para a economia não regredir, o Estado começou a tomar empréstimos externos para financiar a produção. Supunham que a economia cresceria, que as exportaÇões se tornariam espetaculares e que tudo isso daria condições de pagar a dívida externa. Só que os banqueiros internacionais não são trouxas. Emprestaram dinheiro porque sabiam que o Brasil teria de devolver muito mais em forma de juros. Se fizer mos as contas direitinho no papel, vamos concluir que nos anos 70 e 80, o Brasil pagou, só de juros, muito mais do que pediu emprestado! Ou seja, já pagamos tudo, continuamos pagando e ficamos devendo mais ainda! A dívida externa funciona como uma bomba de sucção que chupa os recursos da economia do Brasil. Aliás, o problema da dívida externa é comum em todo o Terceiro Mundo. Segundo os dados insuspeitos do Banco Mundial, na década de 80 foram drenados bilhões de dólares do Terceiro Mundo para o Primeiro. Ou seja, a parte pobre, esfarrapada e faminta do planeta é que mandou dinheiro para a parte milionária! Nos anos 90, é óbvio, esse esquema continua. O mais triste é quando a gente constata que grande parte da dívida externa brasileira foi contraída financiando a vinda de multinacionais, construindo obras gigantescas só para favorecer empresas estrangeiras (estradas, hidrelétricas) , sem falar construções que o governo nunca terminou, deixando as máquinas e o material serem destruídos pelo tempo. Pois é, apertado, o governo precisava de mais dinheiro ainda. Para ele, é fácil. É só fabricar, emitir papel-moeda. Aí, vem a inflação. Para evitar a inundação de dinheiro, o governo criou mercados abertos (opens markets), vendendo títulos, ou seja, papéis expedidos com a garantia do governo, que mais tarde poderiam ser resgatados (o proprietário devolveria para o governo em troca de dinheiro) por um valor superior. A idéia era "enxugar" o mercado, mas a medida deu a maior força para tudo quanto é tipo de especulação financeira, quer dizer, os empresários manobravam para negociar esses títulos com altos lucros. Eis aí um dos grandes problemas da economia brasileira a partir dali: a especulação financeira. Ela é um ganho artificial, já que não envolve nenhum investimento produtivo. No fundo, está transferindo riqueza da sociedade para o bolso de alguns espertinhos. A crise se manifestava com a queda da proporção dos lucros. Os empresários não tinham conversa: buscaram lucrar na marra, botando os preços lá em cima. Ora, é impossível que os empresários, como um todo, possam lucrar na base do simples aumento de preços. Quando alguém aumenta os preços, o outro aumenta também para compensar. Os trabalhadores querem salário maior só para compensar a perda com os aumentos gerais de preços. Os empresários aumentam os salários e, em seguida, sobem mais ainda os preços para reparar as perdas com a alfa de preços e salários. Vira um círculo vicioso. Resultado: o dinheiro vai perdendo o valor. Espiral inflacionária. E o pior é que geralmente os preços crescem mais rápido do que os salários. Portanto, quem mais perde com a inflação são os trabalhadores. Pois a inflação veio a jato, mas os salários andam a passo de cágado.

O general Ernesto Geisel era irmão do arquipoderoso general Orlando Geisel. Família unida é ditadura unida. Sua presidência ocorreu dentro desse panorama de crise econômica. Mesmo assim; Geisel se deu ao luxo de ter um ministro do Trabalho, Arnaldo Prieto, cuja mansão em Brasília, segundo o Jornal do Brasil, consumia, mensalmente, 954 kg de carne e 432 kg de manteiga, Que coisa: uma tonelada de bifes por mês, como devia ser gordo o ministro do Trabalho! Bem, com certeza os salários dos trabalhadores não eram tão gordos.

No meio da crise de energia, o Brasil teve a sorte de descobrir petróleo na bacia de Campos (RJ), em frente à cidade de Macaé. A Petrobrás pôde aumentar sua produção espetacularmente. Mas Geisel tinha também outros planos para resolver o problema energético: como não havia dinheiro no Brasil, a solução foi gastar mais dinheiro ainda. O acordo nuclear Brasil-Alemanha custou uma fortuna de bilhões de dólares. Para fazer usinas perigosíssimas num país onde 80% do potencial hidrelétrico ainda não foi aproveitado. Incrível, não? A usina de Angra dos Reis (RJ) fica exatamente entre os dois maiores centros industriais do país: São Paulo e Rio de Janeiro. Imagine se houvesse um acidente nuclear!

Na verdade, a velha Doutrina de Segurança Nacional continuava ativa. Geisel montou um acordo nuclear com a Alemanha porque acreditava que o Brasil precisava aprender a dominar a tecnologia capaz de produzir, num futuro próximo, a bomba atômica. Na mesma época, a Argentina, que vivia uma ditadura militar desde 1976, também sonhava com cogumelos nucleares. Guerra: coisa de gente que andou tomando uns cogumelos não exatamente nucleares, não é verdade?

No mesmo ano (1975), teve início o Projeto Pró-álcool. A idéia era substituir a gasolina pelo álcool combustível. Os usineiros se alegraram. As plantações de cana-de-açúcar foram ocupando tudo quanto é lugar, expulsando os camponeses moradores, acabando com as plantações de alimentos (tornando a comida mais cara) e despejando o poluente vinhoto nos rios. Nos anos 80, com a queda do preço mundial de petróleo, o Brasil ficou com uma enorme frota de carros movidos a um combustível caríssimo. Já em 1990, querendo melhores preços, os usineiros '`sumiriam" com o álcool. Na verdade, o álcool se revelou um combustível muito mais caro do que a gasolina (no posto, o álcool é mais barato porque é subsidiado, ou seja, o governo paga uma parte da conta. Mas onde arruma dinheiro para fazer essa caridade? Cobrando mais alto pela gasolina. Trocando em miúdos: quem tem carro a gasolina está ajudando a encher o tanque de quem tem carro a álcool). O que se viu nesses anos todos foi o governo emprestando milhões de dólares aos usineiros do Nordeste, do Rio de Janeiro e de São Paulo e depois perdoando as dívidas porque não suporta mais a choradeira dos produtores de álcool e açúcar. Enquanto isso, os cortadores de cana continuam passando fome.

Ora, por que não estimularam o transporte ferroviário e o fluvial, bem mais baratos, podendo, em alguns casos, usar energia elétrica? Não foi incompetência. Na verdade, desde Juscelino que uma das espinhas dorsais de nossa indústria é fabricação de automóveis e caminhões. As pressões das multinacionais desse setor forçaram o governo a abandonar outras opões de transporte. As estradas de ferro, tão importantes nos países desenvolvidos, foram relegadas a segundo plano pelo governo e as estatais deste setor tiveram seus recursos cortados.

O II PND (Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento) - o I PND foi no governo Médici, sob a batuta do ministro Delfim Netto -, comandado pelo ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, e pelo do Planejamento, Reis Velloso, tinha como objetivo começar a substituir as importações de bens de capital (indústria de base). Para isso, o BNDE concedeu créditos generosos a empresas privadas do setor, mas principalmente as empresas estatais tiveram grande crescimento, especialmente a Eletrobrás (que comprou a multinacional Light and Power e levou adiante a construção da maior usina hidrelétrica do mundo, Itaipu, na fronteira com o Paraguai), a Embra tel ( tel efones, satélites de comunicações, tel evisão etc.), a Petrobrás e as estatais de aço. Tudo isso alimentado por uma dívida externa que aumentava sem parar. Em breve, os banqueiros viriam cobrar a dívida e os juros. Aí, a economia sentiria a fona de sucção dos interesses internacionais.

“Distensão ‘lenta, gradual e segura’ rumo à democracia”

Os resultados dos problemas econômicos foi que nas eleições para deputado federal e estadual e para o Senado, em 1974 e 1978, o MDB teve ótima votação. Um aviso claro para o pessoal da ditadura se mancar. O povo estava dizendo não ao regime.

No Alto Comando Militar, as divisões políticas se acentuaram. Uns achavam que a ditadura deveria ir afrouxando, acabando de modo lento e controlado. Talvez, para os ditadores saírem discretamente pelos fundos, sem ninguém correr atrás deles. Esses generais moderados e favoráveis ao gradual retorno à normalidade democrática eram chamados de cas tel istas, porque se sentiam continuadores de Cas tel lo Branco. Era o caso do próprio Geisel e do presidente seguinte, Figueiredo. Outros militares defendiam a “linha dura” - alguns desses eram civis -, e queriam apertar mais ainda. Costa e Silva e Médici, por exemplo, tinham sido de linha dura. Começou então um combate nos bastidores, entre os militares cas tel istas e os linha dura. E os linha dura bem que pegaram pesado.

Em outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog, diretor de tel ejornalismo da TV Cultura de São Paulo , foi chamado para um interrogatório num quar tel do Exército, sede do DOI-CODI. Lá ficou, preso e incomunicável. Dias depois, a família recebeu a notícia de que ele havia “se suicidado”. Com um detalhe: teria de ser enterrado em um caixão lacrado, para que ninguém pudesse ver o estado do cadáver. Suicídio mesmo ou o corpo estava arrebentado pela tortura? No ano seguinte, o operário Manoel Fiel Filho sofreu o mesmo destino. A farsa era evidente: é óbvio que ambos tinham sido mortos por espancamento. Em homenagem a Herzog , o cardeal de São Paulo , D. Paulo Evaristo Arns, junto ao pastor James Wright e ao rabino Henri Sobel, dirigiu um culto religioso ecumênico (reunindo as religiões) em frente à catedral da Sé. Havia milhares de pessoas nesta que foi a primeira manifestação de massa desde 1968. Mostra clara de que a sociedade civil estava voltando para as ruas para protestar contra o arbítrio.

Indiretamente, Geisel reconheceu o crime. Não prendeu ninguém, mas exonerou o comandante do II Exército, responsável pelos acontecimentos. Deixava claro que não admitiria os atos violentos da linha dura. Em 1978, o Poder Judiciário daria ganho de causa à família de Herzog, botando a culpa na União. Sinal dos tempos. Claro que a esquerda não podia dar bobeira. A ditadura ainda existia. Um trágico exemplo disso foi o massacre da Lapa, quando agentes do Exército invadiram uma casa nesse bairro da capital paulista, em 1976, onde se realizava uma reunião secreta de dirigentes do PC do B. As pessoas nem puderam esboçar reação: foram exterminadas ali mesmo, covardemente. Apesar disso, Geisel apostava na distensão lenta e gradual. Para isso, teve de usar a habilidade para derrubar seus opositores de linha dura. A balança pendeu para o seu lado quando ele, num gesto fulminante, exonerou o general Sílvio Frota (1977), ministro do Exército, tido como de extrema direita e ligado à tortura.

A partir daí, a dureza do regime começou a diminuir bem devagar. Alguns militares eram favoráveis à distensão política porque realmente estavam imbuídos de convicções democráticas. Outros, não tão liberais, avaliavam que as Forças Armadas estavam começando a se desgastar ao se manter num governo que enfrentava uma crise econômica violenta. Geisel, portanto, tinha um plano claro: distensão lenta e gradual. Ou seja, abrir o regime bem devagarzinho e sem perder o comando sobre ele. Dentro deste espírito de distensão controlada, Geisel buscou evitar as vitórias eleitorais do MDB. Para isso, mudou as regras das eleições. Seu ministro da Justiça, Armando Falcão, famoso pela in tel igente proibição da transmissão, pela tevê, do balé Bolshoi de Moscou (bailarinos são presa fácil do comunismo?), inventou a tal Lei Falcão (1976), que dizia que a propaganda política na tevê só podia exibir uma foto 3X4 do candidato e seu currículo, lido por um locutor. Nada de um candidato do MDB aparecer na tel inha ou no rádio para criticar o governo e fazer propostas novas.

O natal de 1977 foi antecipado: Geisel fechou o Congresso e deu um presentinho para os brasileiros, o Pacotão de Abril. Lindas surpresas. Para começar, a cada eleição a Arena perdia mais deputados para o MDB. Em breve, o partido do governo não teria os 2/3 do Congresso necessários para mudar alguma coisa da Constituição. Então, o Pacotão determinava que a Constituição agora poderia ser modificada com apenas 50% dos votos dos congressistas mais um. Assim, a Arena (ainda maioria) garantia seu poder constitucional. No senado, o MDB também ameaçava. Resultado: o Pacotão determinou que um terço dos senadores passariam a ser biônicos, ou seja, escolhidos indiretamente pelas Assembléias Legislativas de cada Estado. Em outras palavras, a Arena já tinha garantido quase 1/3 do senado, os outros 2/3 seriam disputados com o MDB nas eleições normais, o Pacotão também alterou o quociente eleitoral, de modo que os estados do Nordeste, onde a população rural ainda era dominada pelos currais eleitorais, e portanto votava com a Arena, tivessem assegurado o direito de eleger um número maior de deputados para o Congresso. No sertão nordestino, chuva mesmo, só de deputados da Arena. O Pacotão fazia das eleições um jogo de futebol em que o dono da bola joga de um lado e, ao mesmo tempo, é juiz.

Em 1978 foi decretado o fim do AI-5, o que mostrava alguma boa vontade de Geisel com a distensão política, Mas antes de ele acabar com o ato arbitrário, usou o AI-5 para cassar diversos opositores. Mais ou menos como o pistoleiro que mata todo mundo e que, depois de acabarem as balas, resolve se arrepender do que fez. A garantia disso. tudo era a Lei de Segurança Nacional (LSN) que continuava sendo mantida.

Em política exterior, o Brasil baseou-se no chamado pragmatismo responsável: restabeleceu relações com países comunistas como a China, porque isso trazia vantagem comercial e diplomática. Em 1975, na África, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde deixaram de ser colônias de Portugal. No poder, partidos de orientação marxista, apoiados por Cuba e URSS. Acontecia que o governo militar ainda seguia a visão da Doutrina de Segurança Nacional que sonhava em transformar o Brasil na grande potência que dominaria a América do Sul e o Sul da África. Por isso, o Brasil não teve conversa e apoiou os governos de esquerda em Angola e Moçambique , inclusive contrariando a vontade do governo racista da África do Sul e dos EUA. Na verdade, os EUA, do presidente Carter, andaram pressionando o governo militar brasileiro por causa da violação de direitos humanos (incluindo tortura e execução de presos políticos). Coisa de americanos: apoiaram o golpe de 64, depois mudaram de governo e passaram a criticar. Diante disso, e de olho no acordo nuclear Brasil – Alemanha, Geisel acabou rompendo um acordo militar Brasil-EUA. Isso mostra uma coisa muito importante: apesar de o regime militar brasileiro ter sido apoiado pelos EUA, tinha os olhos voltados para outros imperialismos, como o alemão, inglês, etc.

No final do seu governo, Geisel passou o bastão para o general Figueiredo. A crise continuava e as pressões populares pelas mudanças, também.

Bibliografia:

História do Brasil – Luiz Koshiba – Ed. Atual

História Crítica do Brasil – Mário Schmidt – Ed. Novos Tempos

História do Brasil – Boris Fausto – Ed. Difel

 

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Fonte: Cultura Brasil

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Domingo, 29 DE Março DE 2009

A Ditadura Militar brasileira, 45 anos depois do golpe de 1964 (parte 1)

Nota: um poema que o companheiro Vanderley Caixe fez nos 43 anos da Ditadura Militar.
 
43 ANOS DA DITADURA MILITAR
Vanderley Caixe


CARTA O BERRO. ..........repassem.

 

43 ANOS DA DITADURA MILITAR
Vanderley Caixe

Foi uma longa noite!
Me recordo dela destruindo sonhos,
gentes "desaparecendo",
nos rios, nos porões do DOPS,
depois nos DOI-CODIs de todo o Brasil.

Eu era um menino-desadolescente,
era estudante consciente,
mas tudo acabou de repente,
naquelas fardas repletas de
medalhas e pingentes.

Os novos dirigentes
não precisavam de gente.
Precisavam da pusilanimidade,
dos lambe-botas, da unanimidade,
do ajoelhar daquele dia,
de toda covardia.

Deram o golpe de Estado e
compuseram o que quiseram.
Criaram leis, decretos, institucionais,
atos severos e não banais,
fizeram do Brasil céu de anil,
exemplos da p.q.pariu.

Prenderam e arrebentaram,
massacraram e torturaram.
Do chão a semente plantaram sem dó,
o medo, o degredo,
roubaram até a aliança da minha avó.
(era ouro para o bem do Brasil - do bolso deles.)

O lixo, o restolho,
os rebotalhos das delegacias,
viraram da noite para o dia,
AUTORIDADE!

Estava plantada no planalto
a DITADURA MILITAR - Brasil-EEUU
(leia-se Estados unidos).
Nós aqui: fodidos.

Veio MEC-USAID,
veio Globo (Time-Life),
veio Veja,
vieram ministros-generais,
todos diretores de multinacionais.

Criaram uma nova profissão:
general ladrão.
Andreazza para a ponte Rio-Niteroi,
Costa Cavalcanti, para Itaipu,
Roubo que até hoje dói.
Não é preciso procurar de lanterna,
basta ver a dívida externa.

Era preciso fazer um novo país servil,
mudanças para desmontar o Brasil,
cassar políticos nacionalistas,
prender lideranças estudantis,
operários e sindicalistas.

Um grande plano foi montado,
para a justiça foi reservado,
atividades sem garantias,
para todos os juizes togados:
libertar presos políticos, juízes eram castigados.
Habeas-corpus suprimido e,
os desmandos policiais generalizados.
Inocentes, ou culpados, até prova em contrário,
respondiam no cartorário.

Nem os livros se podia ler,
até conversar era temerário.
Havia sempre um dedo-duro
cumprindo um papel de otário.
Nem os jornais iam dizer
a verdade e o acontecer.
Nas matérias censuradas, podem crer,
iam receitas de bolos e textos literários.
Ó Lusíadas de Camões,
nunca foi tão lidas pelo parvo.

Quem podia, se sumia,
cientistas, cultores do saber,
gente de bem com a Pátria.
Tudo se ia. Uns pra Europa se podia,
Quem não podia, aqui mesmo era enquadrado.(SE FODIA)

Milico virou poder,
poder degenerado.
Era de se crer,
um poder desmascarado.

Aos jovens não se perdoou a altivez,
as marchas e as passeatas.
Cães, botas, cavalos e cacetadas,
massacrando,ferindo, e, esperando, talvez
uma moçada silenciada.

Ledo engano.
Daquela luta ou se fez,
da força, da luta armada.
Embora com estilingues, outras vez,
lutando pela Pátria amada.

Então, esse Estado usurpado,
aos estrangeiros-imperialistas servindo,
fez da força a carnificina,.
Fez do Estado um pecado:
matou homem, criança e menina,
na tortura, no choque e no machado.
Muitos corpos até hoje, nunca foram encontrados.

Os assassinos de Estado,
serviçais da elite e de nações devoradoras,
aos poucos foram sendo solapados.
A nação se cansou, abriu os olhos democratas.
Uma nova sociedade precisava.
Precisava de um novo Estado.
Uma democracia nova, sem milicos e sem golpistas.
Precisava de um espaço coerente,
uma nova fonte de vista.

A democracia se fez,
com eleições e Anistia.
A ditadura se foi mas,
até hoje seus males persistia.
PERSISTE!

43 ANOS DA DESGRAÇA DESTE PAÍS.
43 ANOS DA DITADURA MILITAR-EEUU.

DITADURA NUNCA MAIS!

 

Nota: Segue-se uma sequência de artigos do companheiro Vanderley Caixe sobre o golpe militar de 1964 e a Ditadura Militar.

 

(I)
 

Estamos há 13 dias dos 45 anos do golpe militar (civil-militar-imperialista) que infelicitou o nosso País por várias gerações.

Muitos dos que estão lendo esse e-mail, hoje, talvez nem tivessem nascidos na época, muitos outros ainda estavam na infância e pré-adolescência.

Os conhecimentos sobre os fatos e as nefastas conseqüências, apesar das evidências no tempo, muitas vezes a literatura não revele todos os fatos e os aspectos mais importantes da nossa história , marcada por esse fato trágico ao destino de toda a Nação Brasileira.

Um fato importante que se acresce é que a Ditadura nos seus estertores tentou burlar toda legislação internacional anistiando torturadores por crime imprescritível.(crime de lesa-humanidade);

Outro, escondendo documentos fundamentais para esclarecimento dos fatos ocorridos: prisões, torturas, assassinatos, localização dos corpos dos revolucionários, cemitérios clandestinos,etc.

Além de um processo seguido de alienação política e cultural que marcaram mais de quatro gerações, através da censura, da queima de livros e filmes, da proibição de peças teatrais. Da manipulação do ensino, suprimindo matérias importantes para o conhecimento da história, da filosofia, da sociologia, etc.

Ainda, o exílio forçado de in tel ectuais, obrigados a residir no exterior, deixando de dar a sua contribuição a cultura do nosso País.

Doutro lado, impedindo as reformas de base necessárias ao avanço da economia, principalmente no campo social, como as reformas : agrária, bancaria, urbana, da habitação, da lei da remessa de lucros, etc.

Transformou o nosso País no paraíso das multinacionais, dos banqueiros, dos latifundiários, enfim das elites econômicas.

Portanto, em vários momentos da Carta O Berro, estaremos repondo conhecimentos históricos relativamente ao fato principal: o Golpe Militar-Civil e Imperialista  e seus desdobramentos.

Haveremos de mostrar , além,  vários vídeos mostrando como os norte-americanos ( tel efonema do presidente dos EEUU, Lindon Johnson, falando com adidos militares articulando o golpe com vários governadores de Estado brasileiros e outras autoridades civis e militares.

Enviaremos, também,alguns referenciais retrospectivos do que foi a Ditadura nesses anos e aspectos da luta de resistência dos brasileiros revolucionários.

 

Clica aqui:

http://www.youtube.com/swf/l.swf?swf=http%3A//s.ytimg.com/yt/swf/cps-vfl86375.swf&video_id=Q65Pz-sFci8&rel=1&eurl=http%3A//br.mc353.mail.yahoo.com/mc/welcome%3F.rand%3D2du0ssfc69a05&iurl=http%3A//i2.ytimg.com/vi/Q65Pz-sFci8/hqdefault.jpg&sk=AjzPRWh_beb3ha40_XDeP3L8m7F3N3wTC&fs=1%22%3E%3C/param%3E%3Cparam&hl=pt-br&cr=US&avg_rating=4.76470588235&length_seconds=370&allow_ratings=1&title=AMERICANOS%20TRAMAM%20APOIO%20AO%20GOLPE%20DE%2064

 

(II)

Ditadura militar

 

Quadro apresenta principais fatos entre 1964 e 1985

1964

Em 31 de março um golpe político-militar depõe João Goulart da Presidência da República. O Ato Instiucional nº 1 suspende os direitos políticos de centenas de pessoas. O general Castelo Branco toma posse como presidente.

1965

Extinguem-se os partidos políticos existentes e institui-se o bipartidarismo, com a Aliança Renovadora Nacional (Arena), de apoio ao governo, e o Movimento Democrático Brasileiro, de oposição.

1966

Suspensas as eleições diretas para cargos executivos. Vários deputados federais são cassados. O Congresso, ao protestar, é posto em recesso por um mês.

1967

O marechal Costa e Silva toma posse na Presidência da República. Líderes da oposição organizam uma frente ampla contra o governo militar.

1968

Oposição é reprimida com violência. O Ato Institucional nº 5 marca o endurecimento do regime, agora abertamente ditatorial.

 1969

Costa e Silva é afastado por motivo de saúde. Uma junta dos ministros militares assume provisoriamente o governo. A alta oficialidade das Forças Armadas escolhe o general Garrastazu Médici para presidente.

 1970

A oposição ao regime se torna mais intensa, com guerrilhas na cidade e no campo. Os militares reagem com violência. Nos "porões" da ditadura, passam a ocorrer mortes, desparecimentos e torturas. 

 1971-1973

 A repressão vence a guerrilha. O país experimenta um momento de desenvolvimento econômico que ficou conhecido como "o milagre brasileiro". A economia cresceu, mas em detrimento da preservação ambiental e com o aumento da dependência do petróleo importado e do capital externo.

 1974

O general Ernesto Geisel assume a presidência, enquanto o MDB conquista uma vitória expressiva nas eleições legislativas. 

 1975-1976

 Geisel representa a ala moderada dos militares e tenta promover uma abertura, enfrentando seus próprios pares. O crescimento econômico se mantém mas já há sinais de crise, proveniente sobretudo do aumento do preço petróleo e da dívida externa.

 1977

A sociedade civil passa a reivindicar efetivamente a recuperação dos direitos democráticos. 

 1978

Fim do AI- 5. A abertura política progride lentamente. 

 1979

O general João Batista Figueiredo assume a presidência. Aprovada a lei da anistia. Centenas de exilados retornam ao país. O pluripartidarismo é restabelecido. 

 1980

Agrava-se a crise econômica. Aumentam as greves e as manifestações de protesto. O PDS substitui a Arena e o PMDB o MDB. Fundam-se o PDT e o PTB.

 1981

 Continuam os conflitos internos entre a ala radical e a ala moderada das forças armadas. Figueiredo tem um infarto e o poder fica nas mãos de um civil, Aureliano Chaves, durante três meses.

 1982-1983

Eleições diretas para governadores e prefeitos, com vitória da oposição em Estados como São Paulo , Minas Gerais e Rio de Janeiro. O PT obtem seu registro na Justiça Eleitoral. Sem condições de pagar aos credores externos, o Brasil vai ao FMI.

 1984

Uma campanha por eleições diretas para presidente da República agita o país. Emenda à Constituição é votada com esse objetivo, mas não consegue ser aprovada no Congresso. O fim do regime militar é iminente.  

 1985

Indiretamente, o civil e oposionista Tancredo Neves é eleito presidente da República. No entanto, com sua morte anterior à posse, assume seu vice, José Sarney.  

                                                                                  

Leia mais: (clique nos itens ao lado)

· Ditadura militar (1964-1985)

· Governo Castello Branco (1964-1967)

· Governo Costa e Silva (1967-1969)

· Governo Médici (1969-1974)

· Governo Geisel (1974-1979)

· Governo Figueiredo (1979-1985) 

 

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publicado por Rojo às 02:00
Quinta-feira, 26 DE Fevereiro DE 2009

Camilo Torres (reportagem TeleSUR)

TeleSUR _ 19/02/2009

 

"Onde caiu Camilo nasceu uma cruz,
porém não de madeira,  e sim de luz".
(Victor Jará)"Não deporei as armas enquanto o poder
não estiver totalmente nas mãos do povo".
(Camilo Torres)


"Camilo Torres está vigente", realça o sociólogo Eduardo Cortez Barrero, em entrevista exclusiva para a equipa do Site da TeleSUR, comentou que na sua juventude era um dirigente estudantil venezuelano e viajou para a Colômbia para conhecer as revoluções que ali se originavam, e assim conhecer de perto as lutas revolucionárias.

"Tive a oportunidade de conhecer a liderança de Camilo, durante uma visita a Bogotá, nas lutas dos anos 60 - 70, quando se abre todo um movimento nos povos deste continente na busca da libertação nacional e contra a oligarquía", recordou Cortez.

"Ele me convidou a caminhar por umas ruas de Bogotá e ali é onde eu entendo perfeitamente a liderança de Camilo, porque saímos oito ou nove pessoas com ele a acompanhá-lo, por uma avenida muito conhecida de Bogotá que se chama a Carreira Séptima…Caminhamos pela Carreira Sétima e quando demos conta, tinhamos gente detrás e gente adiante, o saudando, aproximavam-se dele e ele tinha que improvisar comícios e parar para fazer os seus discursos", narrou.

Camilo Torres, nasceu em Bogotá o três de Fevereiro de 1929, cumprindo-se hoje (3/02/2009) 80 anos do seu nascimento. A Biblioteca Nacional da Venezuela realizou uma homenagem, a quem se converteu num dos líderes mais seguidos na Colômbia, personagem que uma vez dentro da revolução, jamais deixou perder a sua essência de religioso.

Uma vez que se ordena sacerdote em 1954, sai com a sua batina, não só a pregar o evangelho, mas também a estudar e converter-se num cientista social. Desta maneira faz-se conhecedor da realidade histórica e contemporânea de seu país, e assim se incorpora à vida política nacional. Foi então quando pendurou a batina e tomou uma arma, sem abandonar seu espírito cristão.

Lutas de Camilo

Em 1965 Camilo Torres cria o movimento Frente Unido em sua terra natal Bogotá, o que correspondia à oposição à Frente Nacional que constituíram os liberais e conservadores para alternar-se no poder.

Para fazer da sua criação um verdadeiro suporte político, incorpora-se à luta armada, obrigado em parte pelas inumeráveis ameaças contra a sua vida e ideais, no entanto, sempre manteve a promessa de abandonar os fuzis quando o povo estivesse de forma definitiva no poder, o que ainda não ocorreu.

"Era seguido pela gente em todos os lugares, isto é, era um líder e isso é precisamente o que fez com que o seu inimigo, a oligarquia colombiana criminosa, não lhe permitisse que ele abrisse um espaço pela via legal e ante as ameaças e a perspectiva do assassinarem se vai à luta armada", detalhou, em declarações à página do Site da TeleSUR, quem em vida o conheceu, Eduardo Cortez Barrero, um dirigente estudantil venezuelano dos anos 60 e que na actualidade desempenha funções de sociólogo.

Quando ingressa no Exército de Libertação Nacional "ele disse que não ia ser uma figura decorativa, é então que vai a uma acção militar em Santander do Tuy e ali morre", especificou Cortez.

Nessa batalha que teve com o Exército regular colombiano perdeu a sua vida, porque, ainda que a Frente Unida tenha triunfado, em Camilo Torres prevaleceu a sua condição de sacerdote e ao escutar os muitos homens em seu leito de morte dentro do campo onde se deram os confrontos, regressou para dar àquelas almas o Sacramento da Unção dos Doentes, e é nesse momento que foi surpreendido pela morte.

Por sua vez, o precursor da homenagem, Wolfang Vincent, geógrafo e crítico literário, quando iniciou a actividade baseada em comemorar os 80 anos do nascimento de Camilo Torres, expressou que "a liberdade da Colômbia está unida à liberdade da Venezuela, e nessas lutas Camilo foi muito representativo e protagónico, deixou tudo para batallar pelos demais".

A Colômbia de Camilo

Fome, doenças, injustiças e enquistamiento da oligarquia constituíam as principais características da Colômbia em que viveu Camilo Torres (1929 – 1966).

Um estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), realizado no ano de 2002, assinalava que "a Colômbia se encontra desde há 20 anos numa situação à beira da guerra civil onde se enfrentam tropas militares, grupos armados da guerrilha, paramilitares e os narcotraficantes".

No tempo em que viveu Camilo Torres, começaram a surgir na nação os movimentos revolucionários, que se opunham a que o povo padecesse de tanta miséria.

Nos anos 60 aparecem grupos guerrilheiros de esquerda, em 1964, nascem as Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia (FARC) e o 1965 cria-se o Exército de Libertação Nacional (ELN)

Além disso a investigação do PNUD fala de uma violência crescente na qual os civis são as primeiras vítimas: sequestros em massa, atentados, assassinatos, ameaças de morte. Tudo o citado, originou a deslocação de milhões de pessoas que abandonaram os seus lugares de nascimento, tal como refere o citado estudo.

A teologia da libertação

Camilo Torres como cientista social, traz à realidade aqueles ensinos de Tomás de Aquino, o teólogo por excelência.

Segundo falla a "História da Filosofia, Noesis", a teologia propõe que a figura de Deus não deve permanecer em ideais, senão que é prioridade demonstrar durante a sua existência.

Aquino como teólogo, baseia os seus estudos na "preocupação intelectual e didáctica ancorada à sistematização e exposição da doutrina cristã sobre Deus".

Neste sentido, Camilo Torres não se conforma com difundir a doutrina do cristianismo, como também tenta levar a cabo um cristianismo democrático.

"Camilo Torres representa a teologia da libertação. Uma linha de sacerdotes que querem fazer desse sacerdocio uma militância para a libertação", disse em seu discurso o Director da Biblioteca Nacional da Venezuela, Ignacio Barreto, em uma homenagem que fez ao líder colombiano na citada instituição.

Se uma das premissas teológicas estabelece que "a sociedade é o meio comum que tem a humanidade para chegar a seu fim último", para Camilo Torres, esse fim último era a libertação.

O autor Roger Smalling, definiu à teologia da libertação como "um movimento que anuncia a necessidade da participação cristã nos processos sociais, na libertação das classes baixas oprimidas económica e politicamente. Afirma a validade de qualquer meio para atingir esta libertação. Inclusive recomenda o conflito armado, como necessário, se todos os meios pacíficos fracassarem".

Nessa doutrina se enquadrou Torres e muitos outros líderes latinoamericanos. As lutas daqueles revolucionários, como Sandino na Nicarágua, Martin Luther King nos Estados Unidos, o Che Guevara e outros destacados que perderam as suas vidas pela defesa dos direitos dos mais desfavorecidos historicamente, fazem-se presentes na actualidade.

"A luta deles não foi estéril, pois hoje a estamos a viveer em uma realidade, em todo este continente, na Argentina com a Cristina Kirncher, na Venezuela com Hugo Chávez, no Brasil com Lula , na Bolívia com Evo Morais, no Equador com Correa e seguirão se estendendo a cada vez mais Governos soberanos", destacou.

Luinés Daniela Sánchez

Fonte: TeleSUR

publicado por Rojo às 16:48
Quinta-feira, 26 DE Fevereiro DE 2009

A Evolução do Ser Humano: da propriedade à sociedade, da energia ao meio ambiente

Podemos dividir toda a história humana até hoje em 3 grandes fases:

 

- O Homem Caçador-Colector

- O Homem Agrícola

- O Homem Industrial

 

Dentro destas fases existem evidentemente sub-fases, ao analisarmos por exemplo a estrutura de classes mais recente (dentro da era Industrial em que estamos) poderíamos revelar o Homem Financeiro (que está hoje na ordem do dia) e o Homem Tecnológico (que nunca foi muito mais do que uma ilusão cultural).

 

O Homem das Cavernas

 

Segundo os cientistas, a caça e a colecta de plantas como forma de subsistência do ser humano durou mais de 2 milhões de anos da história humana. Ao princípio a Humanidade, na fase do Caçador-Colector, não possuía estrutura de classes, isto acontecia porque a propriedade era vista como comum. A natureza era a fonte de recursos que era partilhada por todos. Mas não se tratava propriamente de um paraíso, quando os recursos eram escassos os humanos poderiam lutar até à morte inclusive. É também certo que haveriam lutas sangrentas quando dois homens escolhiam a mesma mulher para acasalar. No entanto essa violência era apenas ocasional e não sistemática.

 

 

A energia foi descoberta primeiramente pelo Caçador-Colector sobre a forma de fogo, que era usada como protecção, arma de caça ou para cozinhar alimentos. Mas o seu uso era perfeitamente integrado no que poderíamos chamar "a ordem natural das coisas" - que neste contexto significa o enquadramento com as normas que regem os ecossistemas terrestres.

 

O registo mais antigo do Homem moderno que é o Homo Sapiens Sapiens é de há 130.000 anos atrás, o antepassado Neandertal do Homo Sapiens extinguiu-se há 30.000 anos. Antes portanto da Era Agrícola. O Homo Sapiens, dizem os cientistas, é produto de uma longa evolução humana (que segundo Darwin descendeu dos símios).

 

Em esquema: o Homem não domina a Natureza, mas antes colhe dela o que precisa para existir.

 

O Feudalismo

 

Há pelo menos 10.000 anos atrás (8000 A.C.) a Agricultura começou a ser desenvolvida. Inicialmente ela começou por ser um método de "enterrar sementes" por parte dos Caçadores-Colectores de modo a poderem evitar a vida de nómadas e acomodar-se numa região menos vasta. No início era apenas uma inovação por comodidade mas com o tempo tornou se no pilar do que chamamos "civilização" - uma sociedade humana organizada e complexa que transcende as relações sociais consideradas de "primitivas" do Caçador-Colector (tais como de "tribo", de "clã", etc., mais ou menos parecidas com as do restante mundo animal).

 

 

Da nova "civilização agrícola" nasceu um sistema económico de dominação de uma elite de humanos sobre a maioria dos humanos (designados como a "plebe", os "servos, os "escravos", etc.). E do sistema económico Feudal nasceram sistemas políticos, como Monarquias, Impérios e até os primeiros esboços (embora tímidos e em curtos períodos) de República e Democracia reservados a um uso exclusivo das elites e com o tempo incorporando algum poder de voto a sectores de classes intermédias.

 

A energia que alimentou o Homem Agrícola foi usada pelas elites feudais para cimentar e expandir o seu poder. Essa energia eram em primeiro lugar os grãos de cereais que aumentavam a força muscular humana e as outras capacidades físicas humanas, mas também o gado, o peixe, o vinho, hortaliças e frutas que desenvolveram as capacidades do ser humano. Esse ser humano reforçado, mais forte e capaz era usado pela elite feudal para fazer guerras que colocavam estas elites de nações (ancoradas por norma num regime monárquico ou imperial) umas contra as outras em busca de acumular mais e mais recursos e riquezas, que por sua vez serviam para fortalecer o controle das elites sobre a sociedade e os seus estilos de vida luxuosos.

 

A escravatura foi se tornando mais e mais comum nos regimes feudais à medida que estes cresceram em controle de vastos territórios e em poder militar. Um destes regimes que serve como paradigma da sociedade com classes até hoje foi o Império Romano.

 

 

Eu creio que se pode afirmar que quase todas as nações da Era do Homem Agrícola evoluíram ou tentaram evoluir para um Império ou pelo menos se pode dizer que durante esses milénios anteriores à Era Industrial a principal medida de sucesso de uma sociedade era a extensão imperial, ou seja, a conquista de novos territórios (incluindo recursos naturais e povos subjugados pelo domínio de Elites imperiais).

 

 

O Império Romano serviu para dominar toda a Europa e partes da África, da Ásia e do Leste Europeu. O Império Romano entrou em colapso, mas logo apareceram novos herdeiros continuadores. Na chamada "idade média" diversos países - entre os quais se destacam Portugal, Espanha, Inglaterra, França e Holanda - se ergueram para dominar imperialmente o chamado "Novo Mundo" (todas as Américas, do Sul, Central, Caraíbas e do Norte), toda a África e partes da Ásia. A religião católica, as formas de organização política e o expansionismo militar foram incorporadas pelas nações surgidas da desagregação do Império Romano.

 

Na Europa, no período pós-romano, o Clero tornou-se uma poderosa classe dominante associada à Nobreza e à Família Real (todos os últimos dominando o Exército Real que desenvolvia a expansão imperial). A religião hierarquizada servia de controle social e cultural facilitando o trabalho de dominação dos seus sócios imperiais monárquicos e afins.

 

Existiram muitos e imensos Impérios na Era Agrícola, como a Dinastia Omíada (o maior Império dos Califas, árabes islâmicos), o Império do Mongol, o Império Russo, o Império Otomano, os Impérios de Espanha e Portugal, o Império Britânico (que teve uma origem anterior à Revolução Industrial) e outros.

 

As contínuas guerras imperiais criaram novas necessidades de refinamento de armas e estratégias bélicas. Assim surgiram os artesãos. Da necessidade de extrair um maior proveito da espoliação imperial surgiu o comércio e a ascendente burguesia mercantil. E destes reordenamentos de classes surgiram as condições para acabar com as monarquias absolutistas e depois com as liberais, ambas cobertas de sinais de decadência imperial. O comércio, aparentemente, havia se tornado uma forma de dominação mais poderosa do que a força bélica.

 

 

Em esquema: o Homem domina a Natureza, a Elite usa o Homem reforçado para consolidar e expandir o seu poder sobre a Natureza e sobre o próprio Homem.

 

A Era Industrial dos Combustíveis Fósseis

 

A Revolução Industrial vem trazer a base de sustentação económica da expansão do domínio burguês - a nova classe dominante pós-feudal - até estender-se a todo o mundo, fundamentalmente a partir do Século XIX. As origens da Revolução Industrial surgem no alvorecer do Século XVIII com a invenção da Máquina a Vapor que transforma o Carvão numa fonte energética (muito abundante até aos dias de hoje) dinamizadora da criação de vastas indústrias.

 

O advento da Indústria enfraquece e domina o anterior pilar de domínio que era a Agricultura. Os senhores feudais são subordinados à força da burguesia, rebaptizada de capital. A necessidade de subordinar as anteriores classes dominates levou a Burguesia a, inicialmente, adoptar uma postura laica e anti-clerical. Isso deu liberdade a proeminentes intelectuais burgueses enveredarem por ideiais nitidamente progressistas, algo que a Burguesia não permitira que fosse muito longe. Não tardou pois então que a Burguesia perseguisse os seus próprios defensores intelectuais.

 

A Máquina (refiro-me às máquinas em geral) tornou-se uma nova fonte de riqueza aparentemente infindável e foi se esquecendo com o  tempo o facto elementar que a Máquina não seria mais que uma carcaça vazia se não fosse alimentada por abundantes Combustíveis Fóssseis - por natureza finitos. Ela estendeu o seu poder a todos os sectores de actividade, com a mecanização da Agricultura, por exemplo, submetendo os seus anteriores rivais da manufactura (como o nome indica, falo do trabalho braçal humano).

 

A mecanização das actividades humanas foi pavimentando o poder da Burguesia, cimentando o seu controle sobre a sociedade, fortalecendo a sua estrutura económica, transformando o regime político ao sabor de seus interesses e penetrando na própria cultura humana para moldar o pensamento e os sonhos das classes exploradas ou dominadas.

 

A partir do fulgor inicial das ideias progressistas da Revolução Francesa e da precepção que a nova prosperidade mecanizada daria riqueza suficiente para acomodar um conforto material a toda a sociedade, incluindo a classe exploradora (Burguesia) e a explorada (Trabalhadores) surgiram revoltas de Trabalhadores e de Povos que levaram a cedências sem precendentes na história humana das elites às classes dominadas. A publicação do "Manifesto do Partido Comunista" em 1848, a Revolução de Outubro de 1917 e as subsequentes, os julgamentos de Nuremberga entre outros efeitos da Segunga Guerra Mundial, o advento da Organização das Nações Unidas em 1945, a Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948, entre outros acontecimentos - particularmente entre esse período de 1850 a 1950 - elevaram os direitos, liberdades e garantias das classes exploradas mas fizeram também subir as suas expectativas.

 

Uma vez que o controle coercivo por parte das elites sobre as sociedades foi relaxado com as conquistas sociais dos explorados (a democratização generalizada, aumentos dos níveis de vida, de saúde, etc.) a atenção do Homem Industrial virou-se para o consumo de produtos como forma de atingir o bem-estar. O Capitalismo esforçou-se por convencer e conseguiu convencer grande parte da humanidade a enveredar por este estilo de vida - o consumo crescente de produtos como um modo de vida, a identificação do consumidor com o produto, etc.

 

Em esquema: o Homem domina a Natureza, a Elite usa o Homem reforçado para alimentar a Máquina, a Máquina domina o Homem e com o tempo a própria Elite.

 

O Futuro

 

Todos os principais combustíveis fósseis estão, segundo os cientistas, prestes a esgotar durante o actual Século XXI, a manterem-se as actuais taxas de consumo.

 

O mesmo se poderá aplicar a todo o tipo de matérias-primas, incluindo as tão vitais como a Água e o Solo Cultivável, mais cedo ou mais tarde, se se continuar com os actuais ritmos insustentáveis de consumismo, produtivismo e destruição ambiental.

 

Vivemos num mundo finito, temos de nos habituar a essa ideia.

 

Em esquema: a Natureza mostra os seus limites e primeiro a Máquina, depois a Elite e depois o Homem entram em Colapso.

publicado por Rojo às 02:00
Terça-feira, 24 DE Fevereiro DE 2009

Chico Mendes: Um ecossocialista à frente do seu tempo

Carlos Walter Porto-Gonçalves; 6 de Novembro de 2008

 
Há 20 anos, Chico Mendes era assassinado; o legado do seringueiro e o seu sonho de uma sociedade que combinasse socialismo com ecologia continuam vivos.

Francisco Alves Mendes Filho nasceu no seringal Porto Rico no município de Xapuri em 15 de Dezembro de 1944, filho de pais nordestinos que migraram para a Amazónia.

Desde os 11 anos, trabalhou como seringueiro partilhando o destino comum àquelas famílias cujos filhos, em vez de irem à escola, trabalham para extrair o látex.

Chico Mendes teve a fortuna de encontrar aquele que seria o seu grande mestre, Fernando Euclides Távora, que não só lhe ensinou a ler e a escrever, mas o caminho que o levaria a se interessar pelos destinos do planeta e da humanidade.

Euclides Távora era um militante comunista que havia participado activamente no levante comunista de 1935 em Fortaleza e, ainda, na Revolução de 1952 na Bolívia. Retornando ao Brasil pelo Acre, Euclides Távora vai morar em Xapuri quando se torna mestre de Chico Mendes.

Chico Mendes sempre falava com grande carinho do seu grande mentor-educador-político que nunca mais veria desde o golpe ditatorial civil-militar de 1964.

 

 

EMPATES

 

A educação passou a ser uma verdadeira obsessão de Chico Mendes, a que ele dava um sentido político muito prático, pois acreditava que, sabendo ler e escrever, o seringueiro não mais seria roubado nas contas do barracão do patrão.

Em 1975, já militando nas Comunidades Eclesiais de Base – as Cebs – funda o primeiro sindicato de trabalhadores rurais no Acre, em Brasiléia, juntamente com o seu amigo Wilson Pinheiro.

Em Março de 1976, organiza juntamente com os seus companheiros, o primeiro Empate no Seringal Carmen. O Empate consistia na reunião de homens, mulheres e crianças, sob a liderança dos sindicatos, para impedir o desmatamento da floresta, prática que se tornaria emblemática da luta dos seringueiros.

Nos Empates, alertavam os “peões” ao serviço dos fazendeiros de gado, geralmente de fora do Acre, de que a derrubada da mata significava a expulsão de famílias de trabalhadores; convidava-os a associar-se à sua luta oferecendo “colocações” e “estradas” de seringa para trabalhar e, firmes, expulsava-os dos seus acampamentos de destruição impedindo o seu trabalho de derrubada da floresta.

Os Empates tiveram um papel decisivo na consolidação da identidade dos seringueiros, e essa forma de resistência acabou por chamar a atenção de todo o Brasil, sobretudo após o assassinato do seu amigo Wilson Pinheiro, em 21 de Julho de 1980.

Chico Mendes insistiu com os Empates mobilizando os seringueiros, mesmo depois de as autoridades governamentais, diante da repercussão da resistência dos seringueiros, terem começado a fazer projectos de colonização.

 

 

ARMADILHA

 

Chico Mendes, desde então, mostraria uma lúcida compreensão do significado daquela estratégia governamental que, inclusive, encontrava eco entre militantes sindicais, recusando-a, posto que levaria o seringueiro a deixar de ser seringueiro ao torná-lo um colono-agricultor confinado a 50 ou 100 hectares de terra.

Chico Mendes valorizava o modo de vida seringueiro que usava uma restrita pequena parcela de terra junto à casa para fazer o seu roçado e criar pequenos animais e fazia a colecta de frutos e resinas da floresta. Para os seringueiros, o objecto de trabalho não é a terra e, sim, a mata, a floresta. Assim, mais que hectare de terra, Chico Mendes e os seringueiros lutavam pela floresta, e foi essa firme convicção que o levou a gozar de apoio dos seus pares e aproximá-lo dos ecologistas, o que fazia com desconfiança, como não se cansou de manifestar a amigos.

Como comunista, Chico Mendes desconfiava não só dos ecologistas como também de uma série de movimentos sociais que começavam a destacar-se naqueles anos (mulheres, negros, homossexuais) que, acreditava, dividiam a luta dos trabalhadores.

Todavia, como homem prático e com grande capacidade de subordinar os princípios à vida sem perder o sentido da sua luta, Chico Mendes percebeu que os ecologistas, ao defenderem a floresta, eram aliados importantes da luta dos seringueiros na prática, além de permitirem que os seringueiros saíssem do isolamento a que estavam confinados.

 

 

ALIADOS

 

Os ecologistas, por seu lado, reconheceram a importância da luta dos seringueiros e dos seus Empates na preservação da floresta. Dessa aliança, Chico Mendes formulou um princípio que caracterizaria a sua filosofia, «Não há defesa da floresta sem os povos da floresta», que bem pode ser estendido a outras situações de defesa da natureza.

Chico Mendes percebeu que a luta dos seringueiros era uma luta de interesse da humanidade e, pouco a pouco, vai firmando a convicção de que, além da exploração dos trabalhadores, o capitalismo tinha uma voraz força destrutiva que havia de ser combatida.

Assim, Chico Mendes vai tornar-se um dos maiores próceres do ecossocialismo pela junção da luta contra a devastação com a luta contra a exploração e o capitalismo. Enfim, desenvolvia uma fina percepção holística, recusando tanto um sindicalismo como um ecologismo restritos.

Em 1984 num encontro nacional de trabalhadores rurais, Chico Mendes defende uma ousada proposta para a época, a de que a reforma agrária deveria respeitar os contextos sociais e culturais específicos e, um ano depois, ao fundar o Conselho Nacional dos Seringueiros em Brasília, já desenvolve juntamente com os seus companheiros a proposta de Reserva Extrativista, uma verdadeira revolução no conceito de unidade de conservação ambiental que, pela primeira vez, não mais separa o homem da natureza como até então se fazia.

Costumava dizer que a Reserva Extrativista era a reforma agrária dos seringueiros. A Reserva Extrativista consagra todos os princípios ideológicos que Chico Mendes propugnava, posto que, ao mesmo tempo que cada família detinha a prerrogativa de usufruto da sua colocação com a sua casa e com as suas estradas de seringa, a terra e a floresta eram de uso comum, podendo mesmo cada um caçar e colectar nos espaços entre as estradas de cada família, ideia comunitária inspirada nas reservas indígenas.

 

O Testamento de Chico Mendes, o seu ideal

 

SEGUNDO ASSASSINATO

 

Desde então, Chico Mendes empenha-se, juntamente com o seu amigo Ailton Krenak, na construção da Aliança dos Povos da Floresta, unindo indígenas e seringueiros, invertendo a história de massacres que até então protagonizaram instigados pelas grandes casas aviadoras e seringalistas do complexo de exploração de borracha.

Aqui, também, o profundo sentido humanístico não-antropocêntrico da ideologia de Chico Mendes ganhava sentido prático. Registre-se que a proposta da Reserva Extrativista contemplava, ainda, uma inovadora relação da sociedade com o Estado, na medida em que embora a propriedade formal da reserva extrativista seja do Estado, no caso, do então Ibama, a gestão da mesma é de responsabilidade da própria comunidade, cabendo ao órgão público supervisionar o cumprimento do contrato de concessão de direito de uso que, nesse sentido, é o pacto que se estabelece entre o Estado e os seringueiros. Ou seja, o notório saber dos seringueiros torna-se o elemento-chave da concessão do direito de uso que o Estado confere a eles.

Esse princípio viria a ser violentado no Sistema Nacional de Unidades de Conservação, aprovado no ano 2000 que, assim, deve ser considerado rigorosamente como o segundo assassinato de Chico Mendes, pois desconsidera o saber das populações tradicionais como a base de todo o direito que têm aos seus territórios, ao preconizar que todo o plano de manejo deve ser feito por técnicos. Temos aqui um belo exemplo da colonialidade do saber e do poder que, assim, desperdiça a riqueza da experiência humana materializada em múltiplas formas de conhecimento que a humanidade na sua diversidade inventou.

Em toda a sua vida, Chico Mendes jamais deixou de se dedicar à construção de instrumentos de lutas sociais e políticas, tendo sido dirigente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Partido dos Trabalhadores (PT), assim como do Conselho Nacional dos Seringueiros.

 

 

SOCIALISMO COM ECOLOGIA

 

O legado político e moral de Chico Mendes é enorme e pode ser visto tanto pelos intelectuais que reconhecem a originalidade das suas ideias e práticas políticas, como pelos políticos que, tanto no seu Estado como no país, têm os seus cargos de vereador(a), deputada(o), governador, senador(a) e ministra(o) associados às lutas que protagonizou, embora devamos reconhecer que alguns dos seus companheiros no Acre prefiram falar de “governo da floresta” e não governo dos povos da floresta.

Tanto no Brasil como no mundo, o seu trabalho foi reconhecido: em 1987, recebe, em Londres, o Prémio Global 500 da ONU e, em Nova York, a Medalha da Sociedade para Um Mundo Melhor; já em 1988, foi condecorado com o título de Cidadão Honorário da cidade do Rio de Janeiro.

A sua enorme crença na capacidade humana de superar as contradições do mundo que vive organizando-se social e politicamente, foi capaz de inspirar todo um conjunto de ideias e práticas hoje em curso no mundo, que vê a natureza, com a sua produtividade e capacidade de auto-organização (neguentropia), e a criatividade humana, na sua diversidade cultural, como bases de uma racionalidade ambiental (Enrique Leff) ou, como ele gostava de chamar, de uma sociedade que combinasse socialismo com ecologia.

Em 22 de Dezembro de 1988, assassinos ligados à UDR (União Democrática Ruralista) pensaram calar com uma bala essa voz cuja força, tal como uma poronga [1], continua a iluminar caminhos.

[1] Poronga – Instrumento que os seringueiros carregam sobre a cabeça para iluminar os caminhos na mata quando saem, ainda de noite, para trabalhar. Chico Mendes chamou de “poronga” à cartilha que alfabetizava os seringueiros.

 

Fonte da reprodução: Informação Alternativa

 

Primeiro Manifesto Ecossocialista. Michael Lowy e Joel Kovel

 

Por Joel Kovel e Michael Lowy (Setembro 2001)

O século XXI se inicia com uma nota catastrófica, com um grau sem precedentes de desastres ecológicos e uma ordem mundial caótica, cercada por terror e focos de guerras localizadas e desintegradoras, que se espalham como uma gangrena pelos grandes troncos do planeta África Central, Oriente Médio, América do Sul e do Norte , ecoando por todas as nações.

Na nossa visão, as crises ecológicas e o colapso social estão profundamente relacionados e deveriam ser vistos como manifestações diferentes das mesmas forças estruturais. As primeiras derivam, de uma maneira geral, da industrialização massiva, que ultrapassou a capacidade da Terra absorver e conter a instabilidade ecológica. O segundo deriva da forma de imperialismo conhecida como globalização, com seus efeitos desintegradores sobre as sociedades que se colocam em seu caminho. Ainda, essas forças subjacentes são essencialmente diferentes aspectos do mesmo movimento, devendo ser identificadas como a dinâmica central que move o todo: a expansão do sistema capitalista mundial.

Rejeitamos todo tipo de eufemismos ou propaganda que suavizem a brutalidade do sistema: todo mascaramento de seus custos ecológicos, toda mistificação dos custos humanos sob os nomes de democracia e direitos humanos. Ao contrário, insistimos em enxergar o capital a partir daquilo que ele realmente fez.

Agindo sobre a natureza e seu equilíbrio ecológico, o sistema, com seu imperativo de expansão constante da lucratividade, expõe ecossistemas a poluentes desestabilizadores, fragmenta habitats que evoluíram milhões de anos de modo a permitir o surgimento de organismos, dilapida recursos, e reduz a vitalidade sensual da natureza às frias trocas necessárias à acumulação de capital.

Do lado da humanidade, com suas exigências de autodeterminação, comunidade e existência plena de sentido, o capital reduz a maioria das pessoas do mundo a mero reservatório de mão-de-obra, ao mesmo tempo em que descarta os considerados inúteis. O capital invadiu e minou a integridade das comunidades por meio de uma cultura de massas global de consumismo e despolitização. Ele expandiu as disparidades de riqueza e de poder em níveis sem precedentes na história. Trabalhou lado a lado com uma rede de Estados corruptos e subservientes, cujas elites locais, poupando o centro, executam o trabalho de repressão. O capital também colocou em funcionamento, sob a supervisão das potências ocidentais e da superpotência norte-americana, uma rede de organizações trans-estatais destinada a minar a autonomia da periferia, atando-a às suas dívidas enquanto mantém um enorme aparato militar que força a obediência ao centro capitalista.

Nós entendemos que o atual sistema capitalista não pode regular, muito menos superar, as crises que deflagrou. Ele não pode resolver a crise ecológica porque fazê-lo implica em colocar limites ao processo de acumulação uma opção inaceitável para um sistema baseado na regra “cresça ou morra!”. Tampouco ele pode resolver a crise posta pelo terror ou outras formas de rebelião violenta, porque fazê-lo significaria abandonar a lógica do império, impondo limites inaceitáveis ao crescimento e ao “estilo de vida” sustentado pelo império. Sua única opção é recorrer à força bruta, incrementando a alienação e semeando mais terrorismo e contra-terrorismo, gerando assim uma nova variante de fascismo.

Em suma, o sistema capitalista mundial está historicamente falido. Tornou-se um império incapaz de se adaptar, cujo gigantismo expõe sua fraqueza subjacente. O sistema capitalista mundial é, na linguagem da ecologia, profundamente insustentável e, para que haja futuro, deve ser fundamentalmente transformado ou substituído.

É dessa forma que retornamos à dura escolha apresentada por Rosa Luxemburgo: “Socialismo ou Barbárie!”, em que a face da última está impressa neste século que se inicia na forma de eco-catástrofe, terror e contra-terror e sua degeneração fascista.

Mas por que socialismo, por que reviver esta palavra aparentemente consignada ao lixo da história pelos equívocos de suas interpretações no século XX? Por uma única razão: embora castigada e não realizada, a noção de socialismo ainda permanece atual para a superação do capital. Se o capital deve ser superado, uma tarefa dada como urgente considerando a própria sobrevivência da civilização, o resultado será necessariamente “socialista”, pois esse é o termo que designa a passagem a uma sociedade pós-capitalista.

Se dizemos que o capital é radicalmente insustentável e se degenera em barbárie, delineada acima, então estamos também dizendo que precisamos construir um “socialismo” capaz de superar as crises que o capital iniciou. E se os “socialismos” do passado falharam nisso, é nosso dever, se escolhemos um fim outro que não a barbárie, lutar por um socialismo que triunfe. Da mesma forma que a barbárie mudou desde os tempos em que Rosa Luxemburgo enunciou sua profética alternativa, também o nome e a realidade do “socialismo” devem ser adequados aos tempos atuais.

É por essas razões que escolhemos nomear nossa interpretação de “socialismo” como um ecossocialismo, e nos dedicar à sua realização.

Por que Ecossocialismo?

Entendemos o ecossocialismo não como negação, mas como realização dos socialismos da “primeira época” do século vinte, no contexto da crise ecológica. Como seus antecessores, o ecossocialismo se baseia na visão de que capital é trabalho passado reificado, e se fortalece a partir do livre desenvolvimento de todos os produtores, ou em outras palavras, a partir da não separação entre produtores e meios de produção.

Entendemos que essa meta não teve sua implementação possível no socialismo da “primeira época”. As razões dessa impossibilidade são demasiadamente complexas para serem aqui rapidamente abordadas, cabendo, entretanto, mencionar os diversos efeitos do subdesenvolvimento no contexto de hostilidade por parte das potências capitalistas. Essa conjuntura teve efeitos nefastos sobre os socialismos existentes, principalmente no que ser refere à negação da democracia interna associada à apologia do produtivismo capitalista, o que conduziu ao colapso dessas sociedades e à ruína de seus ambientes naturais.

O ecossocialismo retém os objetivos emancipatórios do socialismo da “primeira época”, ao mesmo tempo em que rejeita tanto os objetivos reformistas da social-democracia quanto às estruturas produtivistas das variações burocráticas do socialismo. O ecossocialismo insiste em redefinir a trajetória e objetivo da produção socialista em um contexto ecológico. Ele o faz especificamente em relação aos “limites ao crescimento”, essencial para a sustentabilidade da sociedade. Isso sem, no entanto, impor escassez, sofrimento ou repressão à sociedade. O objetivo é a transformação das necessidades, uma profunda mudança de dimensão qualitativa, não quantitativa. Do ponto de vista da produção de mercadorias, isso se traduz em uma valorização dos valores de uso em detrimento dos valores de troca um projeto de relevância de longo prazo baseado na atividade econômica imediata.

A generalização da produção ecológica sob condições socialistas pode fornecer a base para superação das crises atuais. Uma sociedade de produtores livremente associados não cessa sua própria democratização. Ela deve insistir em libertar todos os seres humanos como seu objetivo e fundamento. Ela supera assim o impulso imperialista subjetiva e objetivamente. Ao realizar tal objetivo, essa sociedade luta para superar todas as formas de dominação, incluindo, especialmente, aquelas de gênero e raça. Ela supera as condições que conduzem a distorções fundamentalistas e suas manifestações terroristas. Em síntese, essa sociedade se coloca em harmonia ecológica com a natureza em um grau impensável sob as condições atuais.

Um resultado prático dessas tendências poderia se expressar, por exemplo, no desaparecimento da dependência de combustíveis fósseis característica do capitalismo industrial , que, por sua vez, poderia fornecer a base material para o resgate das terras subjugadas pelo imperialismo do petróleo, ao mesmo tempo em que possibilitaria a contenção do aquecimento global e de outras aflições da crise ecológica.

Ninguém pode ler estas recomendações sem pensar primeiro em quantas questões práticas e teóricas elas suscitam e, segundo e mais desesperançosamente, em quão remotas elas são em relação à atual configuração do mundo, tanto no que se refere ao que está baseado nas instituições quanto no que está registrado nas consciências. Não precisamos elaborar estes pontos, os quais deveriam ser instantaneamente reconhecidos por todos. Mas insistimos que eles devem ser tomados na perspectiva adequada. Nosso projeto não é nem detalhar cada passo deste caminho nem se render ao adversário devido à preponderância do poder que ostenta. Nosso projeto consiste em desenvolver a lógica de uma suficiente e necessária transformação da atual ordem e começar a dar os passos intermediários em direção a esse objetivo. O fazemos para pensar mais profundamente nessas possibilidades e, ao mesmo tempo, iniciar o trabalho de reunir aqueles de idéias semelhantes. Se existe algum mérito nesses argumentos, então ele precisa servir para que práticas e visões semelhantes germinem de maneira coordenada em diversos pontos do globo. O ecossocialismo será universal e internacional, ou não será. As crises de nosso tempo podem e devem ser vistas como oportunidades revolucionárias, e como tal temos o dever de afirmá-las e concretizá-las.

 

Fonte: EcosSocialistas

 

Instituto Chico Mendes

 

29 de Janeiro de 2009 

Movimentos Sociais fizeram homenagem a Chico Mendes no FORUM SOCIAL MUNDIAL, BELÉM DO PARÁ 2009

por Ana Rogéria* en Adital.com.br**

A Tenda dos 50 anos da Revolução Cubana, instalada na cidade do FSM 2009, na Universidade Federal do Pará, em Belém, sediou nesta manhã uma homenagem para aquele que é o maior símbolo da defesa de um modelo de economia sustentável para a Amazônia: Chico Mendes. Vinte anos depois de sua morte, a atividade mostrou que o legado deixado por ele continua vivo.

 

A ideia, segundo o poeta Pedro Tierra, um dos articuladores da atividade, foi reunir num mesmo espaço pessoas que conviveram com ele e pessoas que, de alguma forma, levam a luta de defesa da região adiante. Representantes do Conselho Nacional de Seringueiros, do Comitê Chico Mendes, lideranças indígenas e ativistas ambientais estavam presentes no evento.


"Num momento singular que as esquerdas do mundo vêm tecendo, construindo, Chico Mendes marca pela vida que teve, pelo significado que teve e pelo que tem a ver com a temática que será inevitavelmente abordada durante o fórum que é a questão da sustentabilidade ambiental", explicou Tierra. A atividade contou com o lançamento do livro "Vozes da Floresta" e da publicação com os anais da sessão solene do Congresso Nacional em homenagem ao líder seringueiro, assassinado em Xapuri, no estado do Acre, há 20 anos. A programação também contou com a leitura do poema "O grito verde que anda", de Pedro Tierra.


A homenagem se completou com o "Pentágono da Paz", onde em cada um dos vértices foi plantada uma muda de seringueira. As mudas foram plantadas por representantes dos continentes. "Com todo o significado que a palavra pentágono tem para a humanidade inteira, de morte, de guerra, de opressão dos povos, o nosso pentágono se contrapõem, fazendo referência à paz, à justiça", falou o poeta. As matérias do projeto "Ações pela Vida" são produzidas com o apoio do Fundo Nacional de Solidariedade da CF2008.

 

Fonte: De Igual a Igual

 

publicado por Rojo às 12:49

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