Os jovens, o partido e os movimentos

Não, não é pelas ganzas,

Não é pelos anti-touradas,

Não é pelos direitos dos animais,

 

Não pelos gays e pelas lésbicas,

Não é pelo folclore das rastas e djambés,

Não é pelo humor stand-up,

 

Não é pelos cartazes coloridos,

Não é pelos jogos de palavras,

Não é pelos soundbytes e pelos truques de retórica...

 

Mas quando toca nos recibos verdes, nos contratos a prazo,

Mas quando toca na precariedade, no estágio para o desemprego,

Mas quando toca nessa porta do cavalo

por onde todos os e as jovens hoje têm que passar

para ganhar uma côdea daquilo que os pais ganharam ao entrar no mercado de trabalho,

a paz, o pão, educação, saúde e habitação... não há liberdade a sério... e os jovens sabem toda essa canção

 

Não saberia a "esquerda moderna" nada disto, se não tivesse tido a feliz ideia de deixá-los falar,

Não, não foi uma camapanha de marketing, não foi tão simples como obter os favores da comunicação social (que os tiveram),

Foi mais o libertar da criatividade, foi ouvi-los, foi deixá-los ter o protagonismo para o mal e para o bem.

 

Enquanto isso o Partido, perdeu jovens, não os perdu em número, mas em força viva, em vontade desaproveitada,

Apesar de continuar a ter nominalmente muitos mais jovens que a esquerda caviar,

O Partido perde os jovens ao vê-los como mais um sector que apenas soma número às lutas já existentes.

 

Tudo bem que é muito importante a experiência, a teoria, a vivência, a vacina contra as ilusões e a ingenuidade,

Eu não nego isso. Mas por outro lado... que teoria, que estratégia, que tática é precisa para enfrentar o corpo de intervenção?

Que lucidez, que vivência é precisa para fazer greve no primeiro mês de contrato? Que experiência é precisa para abdicar do dinheiro,

do amor, do casamento e dos filhos sempre adiados, da felicidade, do futuro e da própria vida porque a Revolução está primeiro?

É ingénuo, é precipitado? Ora essa, é desta ingenuidade que toda a Revolução começa e desta precipitação que a classe dominante

treme finalmente ao ver que há povo, com os jovens sempre na linha da frente, que é mesmo capaz de perder o medo.

 

Os jovens não são apenas, mais um sector, não são apenas mais um número que soma multidões para encher manifestações.

Os jovens são uma força estratégica, os jovens são uma força em si mesmo, os jovens têm que ser protagonistas da luta de classes,

os jovens estão na linha da frente porque esse é o seu lugar, os jovens não são temerários, os jovens são corajosos.

 

Pode o comunismo ser a juventude do mundo se a juventude não for o comunismo do mundo?

Pode se dar todo o poder aos sovietes, se ninguém se quer lembrar dos sovietes?

Pode haver estratégia revolucionária sem entender que os sectores estratégicos são vários para desempenhar várias tarefas?

 

Não há Revolução sem vanguarda operária, não há Revolução sem o generoso pão distribuído dos camponeses...

Mas haverá Revolução sem a coragem, temeridade se quiserem, heroicidade dos jovens para quem

mais vale bater de frente que morrer de joelhos e apodrecer de medo?

 

Porra, quem combate as guerras civis? Quem toma as armas, seja pelo mais revolucionário seja pelo mais fascista reaccionário?

Sem os jovens a incendiar as cidades, as sociedades não se revoltavam, morriam de vergonha, afundavam no medo,

mergulhavam no mais profundo inferno da covardia. Sem os jovens não há grito, não há revolta, não há luta e muito menos há Revolução

digna desse nome.

 

E não basta rejuvenescer algumas figuras visíveis, alguns deputados, alguns vereadores e candidatos.

E não basta rejuvensecer alguns quadros para dar aos jovens o protagonismo e a tarefa de linha avançada que é deles por direito.

Aos jovens é preciso dar a confiança, a liberdade que toda teoria, estratégia, lucidez, clarividência cabe num coktail molotov na hora da verdade.

 

Aos jovens é preciso reconhecer que eles são uma força própria dentro da classe trabalhadora, dentro dos explorados.

Aos jovens é preciso libertar a sua energia, a sua coragem, mesmo que incendeiem as cidades.

Aos jovens é preciso dar um pouco de confiança que se na hora da verdade, as armas sobrepôem-se às palavras, que seja na escolha deles, na decisão soberana e da cabeça e da vontade deles que venha a ordem de marcha para a Revolução seja esta a hora dela ou não,

resultando em vitória, ou travar do passo, da juventude vem uma força praticamente inesgotável, e por cada queda

há sempre novo camarada que se levanta, o importante é dar a esse ritmo um abraço e não lhes tirar a bandeira das mãos.

publicado por Rojo às 03:02