Internacionalismo solitário... ou internacionalismo proletário e solidário

Eu sou de opinião que quase todas as correntes que se reivindicam do marxismo - sejam elas trotskistas, maoístas, conselhistas, autonomistas ou marxistas-leninistas - fazem uma análise habitualmente superficial e medíocre do internacionalismo e do nacionalismo de esquerda.

 

Este binómio internacionalismo/nacionalismo de esquerda é actualmente e com muita frequência desligado erroneamente da obra prima de Lenine "Imperialismo fase superior do capitalismo". Alguns grupos e organizações no campo do marxismo fazem de conta que um sistema imperialista não existe (como superestrutura do capitalismo nacional) quando abordam a questão. É o caso das correntes conselhistas, autonomistas e da generalidade das internacionais trotskistas. Em geral são organizações apostadas na construção de "uma internacional", que os seus activistas vêem como um partido internacional. Estas "internacionais" são geralmente estruturas realmente de partido internacional mas muito pouco funcionais. São construídas apressadamente com grandes doses de improviso, sempre à espreita de uma quimera (uma federação de estados socialistas a aparecer num continente) que lhes sustente o óbvio desiquilibrio na representação de diferentes povos (diferentes quer pela cultura, quer pela nação). Na prática anseiam tão desesperadamente pela abolição das fronteiras que estão por vezes dispostas a apoiar a formação de novos impérios - esquecendo que no passado impérios destes foram bastiões do feudalismo e da verdadeira escravidão (à moda antiga).

 

Mas mais além do que os mais ardentes defensores das internacionais desejam, há também nas diversas correntes marxistas uma semelhante análise superficial do nacionalismo de esquerda. A verdade é que tem sido prática comum durante muito tempo, mesmo entre correntes muito rivais e mutuamente hostis (estalinistas e trotskistas por exemplo), o desancar no nacionalismo de esquerda. Muitas vezes cometendo a leviandade de o colocar no mesmo saco do nacionalismo racista e fascista.

 

Acontece muitas vezes que a crítica a um nacionalismo de esquerda esconde ela própria uma hipócrita adesão a outro nacionalismo. Isto é o que acontece muitas vezes entre a a esquerda federalista do Estado espanhol que critíca o nacionalismo das esquerdas independentistas basca, catalã e galega.

 

No passado, especialmente durante a época de Estaline, a critíca do nacionalismo a partir de Moscovo transformou-se em repressão feroz não só de movimentos de esquerda mas dos próprios partidos comunistas nacionais na União Soviética e no chamado Bloco de Leste.

 

O "internacionalismo"... solitário

 

O internacionalismo solitário é uma fantochada da pequeno burguesia pseudo-radical. O internacionalismo solitário não é só pequeno burguês, é também euro-cêntrico, elitista, académico e perfeitamente higienizado do mundo real onde seres humanos de carne e osso gritam pela urgência da sua libertação de regimes opressores.

 

O internacionalismo solitário dá vivas e hurras à unificação da Alemanha rica e loira que diz ter propiciado um grande movimento operário. Já a unificação de regimes árabes que o general Abdel Nasser propiciou entre Egipto, Síria e Líbia é  para os "solitários" um reles populismo "nacionalista". As peles escuras e os trajes esfarrapados dos povos do Terceiro Mundo - África, Ásia e América Latina - são motivo de desqualificação automática do carácter internacionalista das suas revoluções.

 

Para os "solitários", os únicos puros são os europeus... e de preferência alemães.

 

Internacionalismo versus imperialismo e soberania nacional versus fascismo

 

O internacionalismo como unificação de Estados e o nacionalismo como soberania nacional não são conceitos ideologicamente determinados e universais ideologicamente em si mesmo. Tanto a unificação de Estados como a soberania nacional podem ser utilizados para os fins mais burgueses, fascistas e reaccionários como podem ser usados para os fins mais libertadores, socialistas, proletários e revolucionários.

 

Quando se unifica Estados num sentido reaccionário obtém-se resultados reaccionários. Quando se alcança a soberania nacional para fins reaccionários obtém-se resultados reaccionários. Assim se pode concluir por experiências históricas que num sentido e noutro do internacionalismo e do nacionalismo se deu tanto passos para a frente como para trás no que toca à emacipação humana.

 

A unificação de Estados na Gran Colômbia de Simón Bolívar inspirada num liberalismo progressista primitivo e nos ideais republicanos foi um grande passo para emancipação humana. Entre outras coisas aliou-se ao Haiti revolucionário dos escravos livres, aboliu a escravatura, aboliu a inquisição entre outros passos para a emancipação humana.

 

A unificação da República Federal Centro-Americana de Francisco Morazon moveu-se no mesmo sentido com um republicanismo anti-clerical e diversas reformas progressistas.

 

A unificação da República Árabe Unida de Abdel Gamal Nasser, entre Egipto, Síria e Líbia esteve inclusive próxima do marxismo com reformas radicais da propriedade incorporadas numa ideologia nova de Estado, o socialismo árabe. Se essa república perdurasse até hoje tinha sido evitada a ascenção reaccionária do salafismo e da Irmandade muçulmana na Líbia dos grupos armados, no Egipto dos generais e na Síria dos rebeldes a soldo da NATO, das petro-monarquias feudais e do ultra-reaccionário regime turco. Mas sobretudo para o Médio Oriente e para todo o mundo Árabe seria hoje uma barreira fortíssima contra as sangrentas guerras coloniais e imperialistas que perduram sem interrupção desde aqueles tempos do pós Segunda Guerra Mundial até hoje.

 

A República Socialista Federal da Jugoslávia foi um marco na construção do socialismo, quer pela preocupção em respeitar a diversidade de povos e culturas que a compunham (com a firme disposição constitucional que os Estados se uniam livremente e podiam sair da união), quer pela originalidade do socialismo autogestionário conciliado com o papel do estado na planificação central da economia.

 

Por outro lado a Indochina Francesa se tivesse resultado numa federação de Estados socialistas, que obviamente seria dominado pelo país mais forte que é o Vietname. Só poderia resultar em mais guerras fraticidas e mais derramamneto de sangue entre aqueles povos que apesar de unidos pela luta anticolonial e antimperialista tinham e têem profundas difrenças culturais e ódios antigos que não são nada fáceis de desmontar - e muito menos se desmontam com posições dominantes de algum país.

 

publicado por Rojo às 12:27